A prestação média da casa são 414 euros. Quem assinou contrato este verão paga 731
A taxa de juro implícita no crédito à habitação subiu para 3,135% em julho, o segundo mês seguido a subir. Mas a média nacional junta dois mercados que já não se parecem um com o outro.
O boletim do crédito à habitação que o INE divulgou na quinta-feira trazia dois números na primeira linha: a taxa de juro implícita no conjunto dos contratos subiu para 3,135% em julho, mais 3,4 pontos base do que em junho, e a prestação média fixou-se em 414 euros.
Quatrocentos e catorze euros por mês soa quase confortável. É por isso que vale a pena ler o resto do boletim.
Porque é que 414 euros não é a prestação de quase ninguém
Aquela média junta todos os empréstimos que existem no país, e a esmagadora maioria foi assinada há anos, sobre casas que custavam bastante menos do que custam hoje. O capital médio ainda em dívida, no conjunto dos contratos, é de 79.463 euros. Subiu 598 euros num mês.
Agora o outro lado da mesma tabela. Nos contratos celebrados nos últimos três meses, a prestação média é de 731 euros — mais 16 euros do que em junho e mais 15,1% do que em julho do ano passado. E o capital médio em dívida nesses empréstimos recentes é de 182.446 euros.
Não é uma diferença de grau. É praticamente o dobro da prestação e duas vezes e meia a dívida, no mesmo país e no mesmo mês.
O detalhe irónico é que quem assinou agora paga um juro mais baixo: 2,910%, contra 3,135% no conjunto do stock. Não é o juro que separa os dois grupos. É o preço a que a casa foi comprada — o mesmo mecanismo que está por trás do ritmo recorde a que a dívida das famílias portuguesas cresceu no primeiro semestre.
Metade da prestação nem sequer abate à dívida
Há um terceiro número que passa quase sempre despercebido. Dos 414 euros da prestação média, 205 euros são juros e 209 euros são capital amortizado. Ou seja, 49,5% do que a família entrega ao banco todos os meses não reduz a dívida em cêntimo nenhum.
A subida da Euribor deste ano ainda está a entrar nos contratos. A maioria dos créditos portugueses só revê a taxa de seis em seis meses ou de doze em doze, o que significa que os 3,135% de julho não são o fim da história — são o meio dela.
O que mudou a 1 de agosto
Enquanto isto acontece, as regras para pedir crédito ficaram mais apertadas. Desde o início do mês, a recomendação do Banco de Portugal baixou a taxa de esforço máxima de 50% para 45%, limitou os prazos a 40 anos para quem tem até 35 anos e a 35 anos para quem já passou dessa idade, e acabou com o financiamento a 100% para imóveis dos próprios bancos.
Somando as duas coisas: as prestações dos contratos novos estão nos 731 euros e o rendimento exigido para lá chegar acabou de subir. Quem procura arrendar em vez de comprar não encontra folga nenhuma — em Évora, 43% das casas para arrendar saem do mercado em menos de uma semana.
Os próximos dados do INE, já com agosto, chegam em setembro.
Gráfico: Tugadaily, com dados do INE (taxas de juro implícitas no crédito à habitação, julho de 2026)