Um satélite europeu está a medir o brilho que as plantas devolvem (e é por aí que a seca se vê primeiro)
O FLEX foi lançado a 15 de setembro num Vega-C, a partir de Kourou, e é o primeiro satélite feito de propósito para medir fotossíntese. Orbita a 814 quilómetros, tem três anos e meio de vida útil e volta ao mesmo ponto a cada 27 dias.
Uma planta em stress não muda de cor no dia em que deixa de estar bem. Primeiro abranda por dentro, e só semanas depois a folha o denuncia. Foi para apanhar essa primeira fase que a Agência Espacial Europeia pôs um satélite em órbita esta semana.
Chama-se FLEX e foi lançado a 15 de setembro num Vega-C, a partir de Kourou, na Guiana Francesa, no voo VV30. Subiu acompanhado: o Copernicus Sentinel-3C viajou no mesmo foguetão, em cima do adaptador, e foi colocado em órbita cerca de uma hora antes.
O que é que o FLEX mede, exatamente
Luz que não deu em nada. Quando uma folha absorve luz solar, em condições ideais usa perto de 80% dela para a fotossíntese e o resto sai em calor ou num brilho muito ténue, a chamada fluorescência da clorofila. Esse brilho é invisível a olho nu e tem dois picos, um por volta dos 685 nanómetros e outro perto dos 740.
O interessante é o que lhe acontece quando a planta aperta. A geada e a seca alteram diretamente o mecanismo que produz o sinal, e a fluorescência muda com ele — normalmente para baixo, porque a planta reduz a absorção de luz para se proteger. Medir esse brilho é, portanto, medir fotossíntese em tempo real, e não aparência.
O instrumento que o faz é um espetrómetro de imagem construído só para isto. É a primeira vez que um satélite europeu vai para o espaço com essa tarefa como missão principal, e não como subproduto de outra coisa.
Números da missão
O FLEX voa a 814 quilómetros de altitude, tem uma vida útil prevista de três anos e meio e repete a passagem sobre o mesmo ponto a cada 27 dias. Não anda sozinho: vai emparelhado com o Sentinel-3A, que fornece a leitura da atmosfera e da superfície necessária para limpar o sinal, e mais tarde o Sentinel-3C assume esse lugar na formação.
Porque é que isto interessa a quem vive em Portugal
Porque o país tem exatamente os dois problemas que o FLEX foi feito para ver de cima. No início deste mês o risco máximo de incêndio apanhou 26 concelhos num só domingo, e a Europa Ocidental acabou de fechar o verão mais quente desde que há registo, 2,54 graus acima da média. Uma floresta que já está a fotossintetizar mal em julho é combustível em agosto, e isso hoje só se sabe depois.
Vale a pena manter as expectativas no lugar. Os dados do FLEX não chegam amanhã: o satélite entrou agora na fase de comissionamento, com as equipas do centro de operações da ESA, na Alemanha, a verificar instrumento por instrumento. O que a missão promete é uma série longa, global e comparável de fotossíntese vista do espaço, e disso não existe nenhuma.
Por Oliver Grant
Imagem: © ESA–CNES–Avio / Optique Vidéo de CSG – J. Georget (2026)