Este foguetão alemão pôs cinco satélites em órbita a partir da Noruega (e Santa Maria ficou a ver)
O Spectrum, da Isar Aerospace, descolou de Andøya a 5 de setembro e chegou à órbita cerca de sete minutos depois, no primeiro voo orbital de um lançador privado a partir do continente europeu. O porto espacial dos Açores tem licença e ainda não tem voo.
A Europa passou anos a dizer que precisava de lançar por si própria. No sábado passou a poder dizê-lo no passado.
O Spectrum, da alemã Isar Aerospace, descolou de Andøya, no norte da Noruega, e chegou à órbita cerca de sete minutos depois, colocando lá as suas cargas. Era o segundo voo do lançador e o primeiro a levar satélites: cinco CubeSats e uma experiência científica não separável. É o primeiro voo orbital concluído por um lançador desenvolvido por privados a partir de solo europeu continental — que é uma frase com muitas condições, e ainda assim uma estreia.
Porque é que isto interessa a partir de Lisboa
Porque a fila para lançar é o estrangulamento do setor, e quem tem rampa passa a ter poder negocial. Portugal quer estar desse lado da mesa com a ilha de Santa Maria, nos Açores, e tem argumentos geográficos sérios: latitude baixa, Atlântico aberto a sul e a leste, uma pista e uma estação de rastreio que já lá estão há décadas.
O que falta é o mais difícil de fingir. Falta ter voado. O consórcio que gere o porto espacial tem contrato assinado com a polaca SpaceForest para lançar o foguetão suborbital Perun a partir de Santa Maria, e a leitura que se faz no setor depois de sábado é direta: a ilha precisa de pôr alguma coisa no ar este ano, nem que seja suborbital, antes que a corrida europeia aos portos espaciais fique decidida sem ela.
O relógio anda mais depressa do que o processo
Andøya não era favorita a nada há cinco anos. Tinha uma empresa disposta a construir uma rampa dedicada e um regulador disposto a acompanhar. É o modelo inteiro: não é o sítio que atrai o lançador, é o lançador que valida o sítio.
Portugal tem a estrutura montada e um setor espacial que já vale 1,2 mil milhões de euros à economia, com a Agência Espacial Portuguesa a coordenar. O que ainda não tem é a fotografia com fumo. Enquanto não a tiver, Santa Maria continua a ser um bom sítio para lançar — e Andøya continua a ser o sítio de onde se lançou.
Por Oliver Grant
Imagem: Hoyd / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)