A dona do AliExpress vai à bolsa buscar 10,2 mil milhões de dólares para gastar só em IA
A Alibaba anunciou este domingo a colocação de ações novas em Hong Kong por 80 mil milhões de dólares de Hong Kong. Diz que aplica 100% do encaixe líquido em chips, infraestrutura e modelos de inteligência artificial.
A Alibaba anunciou este domingo que vai emitir ações novas e colocá-las junto de investidores fora dos Estados Unidos, para levantar 80 mil milhões de dólares de Hong Kong — cerca de 10,2 mil milhões de dólares americanos. No comunicado da própria empresa, a razão está escrita sem rodeios: a operação serve para “estender a liderança global em IA” do grupo e 100% do encaixe líquido vai para as suas capacidades de inteligência artificial, incluindo expandir a infraestrutura.
Cem por cento. Não é o habitual “reforço da estrutura de capital e fins societários gerais” que se lê nestes comunicados.
Os termos
Pelos termos indicativos que circularam junto de investidores, são 710 milhões de ações novas a 112,70 dólares de Hong Kong cada, um desconto de cerca de 3,6% face ao último fecho. A colocação é feita ao abrigo da Regulation S, o regime norte-americano que permite vender a investidores fora dos Estados Unidos sem registo junto da SEC — daí a insistência do comunicado em que as ações não podem ser oferecidas nem vendidas em território americano.
Pelas contas do mercado, será a maior emissão primária de ações alguma vez feita por uma cotada de Hong Kong, e a terceira maior do mundo este ano, atrás apenas das operações da Alphabet e da Intel.
A própria Alibaba avisa, na última linha do comunicado, que não há garantia de que a colocação se conclua. É linguagem de praxe, mas convém não a saltar.
Porque é que isto interessa a quem está longe de Hangzhou
Uma empresa com quase 286 mil milhões de dólares de capitalização a diluir acionistas para financiar chips e centros de dados diz alguma coisa sobre o momento: o dinheiro de IA já não sai só de rondas privadas, está a ser pedido ao mercado aberto. É a mesma corrida que levou a OpenAI a fechar uma megaronda que reacendeu o receio de uma bolha e que empurrou a SK Hynix para a maior estreia estrangeira de sempre na Nasdaq.
Para a Europa e para Portugal, o efeito chega pela via mais física de todas. Cada mil milhões investidos em capacidade de computação acabam em terrenos, eletricidade e contratos de rede — e é por isso que a discussão sobre onde se instalam centros de dados deixou de ser um assunto de engenheiros.
Quanto ao investidor português comum, a exposição existe e é indireta: a Alibaba pesa em praticamente todos os fundos de índice de mercados emergentes.
Por Beatriz Mota
Imagem: Thecraft / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)