Este banco abriu em Portugal um balcão só para quem trabalha com o mar
O Abanca Mar chegou esta quinta-feira ao mercado português e financia pesca, aquicultura, construção naval, portos, logística, turismo marítimo e energia offshore. Inclui hipoteca de embarcações e adiantamento de apoios públicos ainda por receber.
Um banco a dizer que financia empresas não é notícia. Um banco a montar uma equipa que só olha para quem vive do mar já diz alguma coisa sobre onde acha que está o dinheiro. O Abanca lançou esta quinta-feira em Portugal o Abanca Mar, um segmento dedicado a empresas e empresários em nome individual da chamada economia azul.
A definição é larga de propósito. Entram a pesca, a aquicultura, a transformação e comercialização de pescado, a construção e a indústria naval auxiliar, os portos, a logística e o transporte marítimo, o turismo costeiro e marítimo, e ainda duas áreas que há dez anos não estariam numa lista destas: a produção de energia offshore e a biotecnologia marinha.
O que é diferente de um crédito normal
Duas coisas, e as duas têm a ver com o ritmo do setor. A primeira é o financiamento a médio e longo prazo com hipoteca de embarcações, ou seja, aceitar o barco como garantia em vez de exigir outro colateral, o que muda a conversa para quem tem o património todo a flutuar.
A segunda é mais prática do que parece. São operações de curto prazo para antecipar apoios públicos, o dinheiro que cobre o intervalo entre fazer o investimento e receber o incentivo. Quem se candidatou ao apoio ao gasóleo da pesca que abriu este mês reconhece o problema: o apoio existe, chega tarde, e entretanto há salários e combustível para pagar.
O banco enquadra a aposta na dimensão marítima do país, com cerca de 2.500 quilómetros de costa e uma Zona Económica Exclusiva de aproximadamente 1,7 milhões de quilómetros quadrados. Sara Monteiro, coordenadora do segmento, resume a lógica da especialização como identificar as particularidades de cada atividade e ajustar as soluções ao ciclo de cada uma.
Porquê agora
O Abanca faz isto há mais de uma década em Espanha e traz o modelo para cá, com uma abordagem que assume ser ibérica, porque as relações entre empresas portuguesas e espanholas já são densas na reparação naval e na comercialização de pescado.
O calendário também ajuda. A aquicultura está a crescer, as renováveis offshore estão a sair do papel, a descarbonização dos portos e do transporte marítimo obriga a investir, e os fundos europeus estão a financiar modernização de infraestruturas e pesca sustentável. Tudo isso gera investimento, e o investimento gera necessidade de crédito, que é precisamente onde um banco quer estar quando o setor arranca.
Fica por saber o tamanho. O Abanca não divulgou dotação, metas de carteira nem número de operações previstas, o que torna difícil medir se isto é um segmento a sério ou uma marca comercial em cima da rede que já existe. O primeiro sinal virá dos números de crédito concedido ao setor, e esses só aparecem daqui a alguns trimestres.
Por Beatriz Mota
Imagem: Kolforn / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)