O surto de Ébola na RD Congo é o maior de sempre no país. Já morreram 1.801 pessoas
A OMS contabilizava 3.973 casos confirmados até 4 de agosto, espalhados por cinco províncias. No Ituri, epicentro do surto, há profissionais de saúde em greve por salários em atraso.
Três meses depois do primeiro alerta, o surto de Ébola no nordeste da República Democrática do Congo tornou-se o maior de que há registo no país. Os dados da Organização Mundial de Saúde sobre este surto apontavam, a 5 de agosto, para 3.973 casos confirmados e 1.801 mortes, com números fechados no dia 4.
Começou em maio numa única zona de saúde, Mongbwalu, no Ituri. Chegou agora a cinco províncias e a 49 zonas de saúde: além do Ituri, também Kivu do Norte, Kivu do Sul, Alto Uele e Tshopo. O Ituri continua a concentrar quase tudo, com 3.460 casos e 1.464 mortes distribuídos por 28 das suas 36 zonas de saúde.
O vírus em causa é o Bundibugyo, uma das espécies de Ébola para as quais não existe vacina licenciada nem tratamento específico. Há candidatos em ensaio, mas nada que se possa distribuir hoje em massa. Foi por isso que a OMS declarou, a 17 de maio, uma emergência de saúde pública de âmbito internacional.
Porque é que a resposta não está a chegar
O diretor-geral da OMS viajou esta semana para o Congo e resumiu o problema de forma pouco diplomática: o surto está a crescer mais depressa do que a resposta. Em alguns focos, os casos duplicam. E cerca de 80 por cento dos novos doentes não aparecem através do rastreio de contactos, o que significa que a cadeia de transmissão está a correr fora do radar das equipas.
A isso soma-se uma coisa prosaica e decisiva. No Ituri, muitos profissionais da linha da frente entraram em greve por causa de salários que só começaram a ser pagos nas últimas semanas, e continuam a exigir remunerações melhores. Numa região já marcada por conflito armado e por acessos difíceis, cada dia sem equipas nos centros de tratamento custa doentes.
Quando o surto chegou aos mil casos num mês, em junho, já havia quem avisasse que a curva estava a acelerar. Dois meses depois, os números quadruplicaram.
Por Marta Carneiro
Mapa: Profoss, a partir de original de NordNordWest / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)