A Europa Ocidental teve o verão mais quente desde que há registo, 2,54 graus acima da média
O Copernicus fechou as contas de agosto: a Europa Ocidental bateu o recorde de 2003 por mais de meio grau. Portugal está dentro da caixa que produziu o recorde, mas não aparece na lista de países que bateram o seu.
O verão de 2026 foi o mais quente alguma vez medido na Europa Ocidental. A média de junho a agosto na região ficou em 21,69 graus, 2,54 acima da média de 1991-2020, e o boletim do Copernicus publicado esta quinta-feira mostra por quanto: o recorde anterior era o de 2003, com 1,98 graus acima da média, e caiu por mais de meio grau.
A comparação com 2003 é a parte que muda o significado do número. Nessa altura o verão europeu foi um caso isolado, uma anomalia num período em que a maioria dos verões era mais fresca do que a média. Desta vez não é. Todos os verões na Europa Ocidental desde 2015 ficaram acima da média, e o de 2022 já tinha chegado perto do valor de 2003.
Onde é que Portugal entra nisto
A caixa que o Copernicus usa para definir “Europa Ocidental” vai dos 11 graus oeste aos 15 graus este e dos 37 aos 55 graus norte. Portugal continental cabe lá dentro, de Sagres a Melgaço. O recorde regional é, portanto, também nosso.
O que não aparece em lado nenhum do boletim é o nome do país. Quando o Copernicus lista os serviços meteorológicos nacionais que confirmaram um verão recorde, aparecem sete: França, Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Bélgica, Espanha e Áustria. E quando descreve as zonas onde os dados do ERA5 dão o verão mais quente desde pelo menos 1979, nomeia praticamente toda a Inglaterra, o País de Gales e a Bélgica, mais a maior parte de França, Espanha, Itália, Suíça e Áustria. Portugal fica de fora das duas listas.
Não é uma contradição: a caixa é regional, e o calor mais extremo concentrou-se em França e no nordeste de Espanha, com anomalias de 4 a 5 graus. Mas é uma ausência que ninguém vai explicar, porque o boletim nacional que a explicaria ainda não existe. Até esta quinta-feira o índice de boletins climatológicos mensais do IPMA continuava a terminar em julho, o mês que foi o mais seco deste século em Portugal.
O resto das contas de agosto
Globalmente, agosto de 2026 foi o mês mais quente alguma vez medido, empatado com julho de 2023 — 16,96 graus contra 16,95, uma diferença abaixo de um centésimo. Foi 1,65 graus acima da média estimada para 1850-1900, o primeiro mês acima de 1,5 desde novembro de 2025.
Houve ainda uma curiosidade que raramente acontece: agosto foi 0,06 graus mais quente do que julho. Desde 1940, isso só se tinha verificado quatro vezes, em 1945, 1951, 1955 e 1985.
No mar, a média à superfície fora das regiões polares ficou nos 21,07 graus, o valor mais alto alguma vez medido num mês de agosto e o mais alto de sempre em qualquer mês, a par de março de 2024. O máximo diário absoluto, 21,11 graus, caiu a 24 e 25 de agosto, e desde 19 de junho que cada dia do calendário bate o seu próprio recorde — uma escalada que já tínhamos apanhado ainda a meio do mês. Para a Europa como um todo, o verão foi o terceiro mais quente, atrás de 2024 e 2022, e agosto o quarto mais quente. O que empurrou a estação para cima foi junho, o segundo mais quente de sempre; julho ficou-se pelo 11.º lugar.
O Copernicus diz ainda que o El Niño em formação deverá reforçar-se e ultrapassar o episódio de 2023, o que aumenta a probabilidade de temperaturas altas até ao fim do ano. Uma análise mais detalhada do verão europeu está prometida para o final de setembro.
Por Marta Carneiro
Gráfico: Tugadaily, com dados do Copernicus C3S/ECMWF (ERA5)