Este foi o dia mais quente já medido à superfície dos oceanos (e o recorde caiu em agosto, não em março)
O Copernicus confirmou 21,1 graus de média global à superfície do mar a 22 de agosto, acima dos 21,09 de março de 2024. O calendário é o dado inquietante, e o mecanismo que o serviço europeu descreve chega a Portugal no outono.
A 22 de agosto, a temperatura média à superfície dos oceanos chegou aos 21,1 graus. É o valor diário mais alto de que há registo, confirmado pelo Copernicus, o serviço de alterações climáticas da União Europeia, com base na série ERA5, que arranca em 1979.
O recorde anterior era de 21,09 graus e tinha sido estabelecido em março de 2024. A diferença entre os dois números é de um centésimo de grau, o que por si só não diria nada a ninguém. O que diz alguma coisa é o mês.
Porque é que agosto é o mês errado para isto
Os oceanos não aquecem ao mesmo ritmo o ano inteiro. O pico global costuma acontecer em março e abril, a seguir ao verão do hemisfério sul, onde está a maior parte da água do planeta. Agosto é suposto ser um mês de arrefecimento na média global.
Foi em agosto que o recorde caiu. O melhor valor de agosto até aqui eram os 20,98 graus de 2023, e este ano ficou 0,12 acima disso.
O que o Copernicus diz que acontece a seguir
Está a formar-se um El Niño forte no Pacífico tropical, que acrescenta calor a um oceano que já vinha a aquecer há décadas. A Organização Meteorológica Mundial espera que o fenómeno se intensifique nos próximos meses, e o sistema de previsão sazonal do Copernicus admite que possa atingir uma escala que não se vê há várias décadas.
O serviço europeu descreve também o mecanismo que interessa a quem vive de frente para o Atlântico. Um oceano mais quente transfere mais calor e mais humidade para a atmosfera, o que pode intensificar a chuva e algumas tempestades. Não é uma previsão para um país concreto, e o Copernicus não a apresenta como tal. É a física de que se alimenta uma época de temporais.
Portugal chega ao outono a pagar o anterior
Portugal está neste momento a fechar as contas da última época. A depressão Kristin passou em janeiro, e sete meses depois o Estado continuava a alargar o programa de recuperação: em agosto, mais 26 municípios entraram no Territórios Resilientes, levando o total para 82 e a dotação para 80 milhões de euros.
O calendário dos temporais em Portugal começa tipicamente em outubro e vai até fevereiro. O que o recorde de 22 de agosto muda não é a certeza de uma tempestade, é o depósito de energia com que a estação começa.
Por Marta Carneiro
Imagem: C3S/ECMWF, Copernicus Climate Change Service (© União Europeia, 2026)