Morreu Dolores Huerta, cofundadora do sindicato dos trabalhadores agrícolas dos EUA, aos 96 anos
A ativista que fundou com Cesar Chavez a United Farm Workers e deu ao movimento o lema 'Sí, se puede' morreu em casa na quarta-feira, 28 de outubro, anunciou a família. Recebeu de Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade em 2012.
Dolores Huerta, a ativista que ajudou a fundar o primeiro grande sindicato de trabalhadores agrícolas dos Estados Unidos, morreu esta quarta-feira, aos 96 anos. A família anunciou a morte num comunicado partilhado pela fundação com o seu nome e disse que ela morreu em casa. Não foi divulgada a causa.
O sindicato que ajudou a criar, a United Farm Workers, despediu-se dela num comunicado da presidente, Teresa Romero, que lhe atribui o lema histórico do movimento: “Sí, se puede”.
Uma vida nos campos da Califórnia
Huerta nasceu a 10 de abril de 1930 em Dawson, no Novo México, e cresceu em Stockton, na Califórnia, criada pela mãe e pelo avô. Foi professora antes de trocar a sala de aula pela organização sindical, porque os alunos, filhos de trabalhadores do campo, lhe chegavam à escola com fome.
Em 1962 fundou com Cesar Chavez e Gilbert Padilla a associação que viria a ser a United Farm Workers. Foi ela quem se sentou à mesa com os produtores de uva durante a greve de Delano, que terminou em 1970 com contratos coletivos para milhares de trabalhadores. A UFW recorda ainda o papel dela no fim do programa Bracero, nos anos 60, e na lei de imigração de 1986, que abriu a porta à legalização de milhões de pessoas.
Em 1988, numa manifestação em São Francisco, foi espancada por um polícia e ficou com costelas partidas e o baço rompido, que teve de ser removido. Voltou ao trabalho. Em 2002 criou a Dolores Huerta Foundation, em Bakersfield, e em 2012 recebeu de Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta distinção civil do país.
Os últimos meses
Em março deste ano, numa investigação jornalística sobre o fundador do sindicato, Huerta contou publicamente que Chavez, morto em 1993, a agrediu sexualmente em 1960 e 1966. Disse que guardara o segredo durante décadas e que se via como sobrevivente, não como vítima.
Continuou ativa até ao fim, a fazer campanha pelo voto latino. O tipo de luta que travou, por salários e por um contrato coletivo, é a mesma que os sindicatos portugueses travam quando discutem o salário mínimo para 2027.
Por Marta Carneiro
Imagem: Gage Skidmore / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)