O maior prémio do mundo na área da visão é português. Este ano foi para quem devolveu alguma visão a doentes cegos
Botond Roska e José-Alain Sahel receberam o Prémio António Champalimaud de Visão 2026, no valor de um milhão de euros. Distingue duas décadas de trabalho em terapias optogenéticas, que tornam sensíveis à luz células da retina que sobreviveram à doença.
Há um prémio científico de um milhão de euros que sai de Lisboa todos os anos e que é o maior do mundo na sua área. Chama-se Prémio António Champalimaud de Visão, é atribuído pela Fundação Champalimaud, e a edição de 2026 já tem vencedores: Botond Roska e José-Alain Sahel.
Roska é neurocientista e um dos diretores fundadores do Institute of Molecular and Clinical Ophthalmology, em Basileia. Sahel é oftalmologista e clínico-investigador, na Universidade de Pittsburgh, e preside ao conselho científico do mesmo instituto. Trabalham juntos há mais de vinte anos.
O que é que eles fizeram
Trabalharam no problema mais difícil da oftalmologia: o que fazer quando os fotorrecetores do olho — as células que captam a luz — já morreram. A doença leva-os e não os devolve. A abordagem que ajudaram a construir chama-se optogenética e resolve o problema ao contrário: em vez de tentar recuperar as células perdidas, torna sensíveis à luz outras células da retina que sobreviveram, dando-lhes uma função que nunca tiveram.
Em 2021, Roska, Sahel e os colaboradores publicaram na Nature Medicine o resultado que transformou isto de promessa em facto clínico: um doente cego com retinopatia pigmentar recuperou parcialmente função visual. Parcialmente é a palavra importante. Não é ver como antes; é distinguir, localizar, agarrar um objeto pousado numa mesa.
Porque é que isto conta como notícia portuguesa
Porque o dinheiro e o critério são portugueses. A Fundação Champalimaud atribui este prémio desde 2007, alternando entre anos dedicados à investigação e anos dedicados ao combate à cegueira nas regiões em desenvolvimento, e um milhão de euros continua a ser mais do que qualquer outra distinção na área oferece. É uma das poucas coisas em que Portugal define a fronteira internacional de um campo inteiro em vez de a seguir — e fá-lo a partir de um edifício em Pedrouços que a maioria das pessoas conhece pela silhueta e não pelo que lá dentro se decide.
O valor do prémio vai financiar a fase seguinte do trabalho dos dois. O objetivo que Roska e Sahel já assumiram publicamente é subir a fasquia do que a terapia devolve: passar de distinguir formas para reconhecer rostos.
Fica a nota que qualquer leitura honesta destes anúncios exige: uma terapia premiada não é uma terapia disponível na consulta ao virar da esquina, e o caminho entre um ensaio publicado e um tratamento de rotina no SNS mede-se em anos. Ainda assim, é a ciência a andar na direção certa — e vale a pena lembrar que as candidaturas à edição de 2027 estão abertas até 31 de dezembro. Como acontece com boa parte da investigação de fronteira, também esta tem pé em Portugal sem sair nas manchetes.
Por Marta Carneiro
Imagem: Vitor Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0) · fotografia de arquivo