Juntar dois medicamentos cortou em 58% o risco de morte num dos cancros do pulmão mais agressivos
No ensaio de fase 3 DeLLphi-305, apresentado no ESMO 2026 em Madrid, juntar o tarlatamab (Imdelltra, da Amgen) ao durvalumab (Imfinzi, da AstraZeneca) como manutenção no cancro do pulmão de pequenas células extenso levou a sobrevivência mediana de 12,7 para 21,1 meses.
O cancro do pulmão de pequenas células é dos mais duros que existem. Quando já está espalhado, a sobrevivência mediana com o tratamento atual anda pelo ano, e só cerca de 3,6% dos doentes chegam aos cinco anos. É por isso que o número apresentado no sábado no congresso europeu de oncologia (ESMO), em Madrid, fez barulho: juntar um segundo medicamento à manutenção reduziu o risco de morte em 58%.
O que foi testado
O ensaio chama-se DeLLphi-305 e é de fase 3. Participaram 563 doentes com a doença em estádio extenso que já tinham feito a primeira linha de quimioterapia com durvalumab (Imfinzi, da AstraZeneca) sem que o cancro avançasse. Metade continuou só com o durvalumab. A outra metade recebeu também tarlatamab (Imdelltra, da Amgen), um anticorpo que “agarra” ao mesmo tempo as células do tumor e as células T do sistema imunitário, para que estas ataquem.
Os resultados, publicados em simultâneo no New England Journal of Medicine, foram estes:
- sobrevivência mediana de 21,1 meses com a combinação, contra 12,7 só com durvalumab;
- 79% dos doentes vivos ao fim de um ano, contra 53%;
- 7,4 meses sem a doença progredir, contra 1,9;
- o tumor encolheu em 26% dos doentes com a dupla, contra 4%.
Os números completos estão no comunicado da AstraZeneca sobre o DeLLphi-305, que patrocinou parte do estudo.
O preço em efeitos secundários
Mais tratamento trouxe mais efeitos adversos graves (grau 3 ou 4) ligados aos medicamentos: 20,9% dos doentes com a combinação, contra 10,8% com o durvalumab sozinho. Não houve mortes atribuídas ao tratamento. As duas primeiras doses de tarlatamab exigem vigilância em meio hospitalar, que na Europa pode chegar às seis a oito horas.
E agora?
O tarlatamab já está aprovado nos Estados Unidos para a segunda linha deste cancro. Esta combinação, em manutenção, ainda não está aprovada em lado nenhum, e a Amgen disse que vai levar os dados aos reguladores. Não há, para já, calendário para a Europa.
O cancro do pulmão é a primeira causa de morte por cancro no mundo, e as pequenas células são cerca de 15% dos casos. Em Portugal, o diagnóstico também tem andado: o IPO de Lisboa fez este verão a primeira broncoscopia robótica do país, uma técnica para chegar a nódulos pequenos no pulmão.
Por Marta Carneiro
Gráfico: Tugadaily, com dados da AstraZeneca (ESMO 2026)