Quem não andou na escola mede mais a tensão arterial e faz menos colonoscopias
No Inquérito Nacional de Saúde de 2025, 80,2% de quem não tem escolaridade mediu a tensão no último ano, mais do que qualquer outro nível de escolaridade. Na colonoscopia esse mesmo grupo fica-se por 37,3%, contra 55,9% de quem tem um curso superior.
O INE publicou esta terça-feira mais um recorte do Inquérito Nacional de Saúde de 2025, desta vez sobre acesso a cuidados de saúde. O número que dá o título ao documento é este: 51,4% das pessoas com 50 ou mais anos disseram ter feito uma colonoscopia nos dez anos anteriores. Pouco mais de metade.
Mas o que salta à vista quando se lê a tabela toda não é a média. É a forma como ela se parte por escolaridade, e o facto de se partir ao contrário do que seria de esperar.
Três exames que sobem quando a escolaridade desce
Medir a tensão arterial, a glicémia e o colesterol são os três rastreios que o INE segue para toda a população com 15 ou mais anos. Em todos os três, quem não tem qualquer nível de escolaridade aparece à frente: 80,2% mediram a tensão no ano anterior, 75,1% a glicémia e 77,2% o colesterol. Quem tem um curso superior fica-se por 73,1%, 62,6% e 63,1%.
O padrão repete-se, ainda mais vincado, na população reformada, que passa dos 80% nos três. Faz sentido: são exames que acontecem dentro de uma consulta de medicina geral e familiar, e a consulta acontece muito mais a quem é mais velho e a quem já não trabalha. Dos 65 aos 74 anos, 86,6% foram ao médico de família no último ano. Dos 15 aos 24, foram 56,0%.
E um que faz o contrário
A colonoscopia inverte tudo. Entre as pessoas com 50 ou mais anos sem escolaridade, 37,3% fizeram uma na última década. Com o ensino básico ou secundário, 51,8%. Com ensino superior, 55,9%. São 18,6 pontos entre os extremos, e a ordem é exactamente a oposta à dos outros três exames.
A diferença entre uns e outros é o esforço que exigem ao doente. A tensão mede-se na consulta que já existe. A colonoscopia precisa de uma referenciação, de uma preparação em casa no dia anterior, muitas vezes de boleia e de um dia fora do trabalho. Quem está desempregado é quem menos a faz de todos os grupos: 40,3%.
Nas mulheres, a fractura está na citologia
Os dois rastreios femininos contam a mesma história com números diferentes. A mamografia está relativamente nivelada: 79,7% das mulheres dos 50 aos 69 anos fizeram uma nos dois anos anteriores, e a diferença entre ensino básico e superior é de menos de três pontos.
Já a citologia cervical abre. No total, 65,7% das mulheres dos 20 aos 69 anos fizeram uma nos três anos anteriores, mas são 72,8% entre as licenciadas e 63,2% entre as que têm o básico. E é no estatuto perante o trabalho que a distância fica maior de todas: 72,7% entre as empregadas, 51,8% entre as reformadas e 43,8% entre as restantes inactivas.
Vale a pena ler isto ao lado do que a Ordem dos Médicos disse na semana passada sobre as onze regiões onde é difícil fixar médicos, e ao lado do facto de a norma que fixa o arranque da vacinação da gripe continuar por publicar. O acesso raramente falha por uma razão só.
Por Marta Carneiro
Gráfico: Tugadaily, com dados do INE (Inquérito Nacional de Saúde 2025)