Trocar o sal por sal com potássio evitaria quase 3 milhões de mortes por ano (mas há quem não deva fazê-lo)
Um estudo publicado a 4 de novembro na Nature Health, liderado pelo George Institute, modelou o efeito de substituir o sal comum por sal enriquecido com potássio em 193 países: 2,96 milhões de mortes por doença cardiovascular e renal evitadas por ano, 10,17 milhões de casos novos a menos. Quem tem doença renal avançada ou toma medicamentos que retêm potássio é a exceção.
Se todo o sal que comemos fosse trocado por sal enriquecido com potássio, morreriam menos cerca de 2,96 milhões de pessoas por ano no mundo. É essa a estimativa central de um estudo publicado a 4 de novembro na revista Nature Health, feito por uma equipa liderada pelo George Institute for Global Health, da Austrália.
As contas cobrem 193 países e dizem respeito a doenças cardiovasculares (enfartes, AVC) e doença renal crónica. Além das mortes, seriam evitados 10,17 milhões de casos novos por ano.
O que é o sal enriquecido com potássio?
É sal em que parte do cloreto de sódio é substituída por cloreto de potássio. Funciona por duas vias: menos sódio faz baixar a tensão arterial, e mais potássio ajuda a baixá-la ainda mais. A Organização Mundial da Saúde passou a recomendá-lo em 2025.
Não é uma ideia nova. Em 2021, um ensaio com 21 mil pessoas em 600 aldeias da China mostrou que quem cozinhava com este sal teve menos 14% de AVC ao fim de cinco anos. O novo trabalho é um modelo, não um ensaio: pega nesses efeitos e aplica-os às populações de cada país.
Onde se evitariam mais mortes?
Na China, cerca de 1,08 milhões por ano, mais de um terço do total. Na Índia, quase 400 mil. No Reino Unido, perto de 13 mil.
O estudo testou cinco cenários. Trocar só o sal de casa (o do saleiro e o da panela) evitaria 1,85 milhões de mortes. Trocar só o sal da comida processada e dos restaurantes, 1,56 milhões. Os dois números não se somam: cada cenário foi calculado à parte, e trocar todo o sal de uma vez dá os 2,96 milhões, menos do que a soma das partes.
Para a Europa, o segundo cenário pesa mais do que parece. Segundo Bruce Neal, um dos autores, mais de 70% do sal que os europeus comem vem de produtos processados e de refeições fora de casa. Ou seja, mudar o saleiro ajuda, mas a indústria alimentar teria de acompanhar.
Quem não deve usar sal com potássio?
Pessoas com doença renal avançada e quem toma medicamentos que fazem o corpo reter potássio. Nelas, o excesso de potássio no sangue (hipercaliemia) pode ser perigoso. O próprio estudo faz as contas: neste grupo, a troca causaria cerca de 100 mil mortes por ano, mas evitaria 750 mil pela descida da tensão.
O conselho prático é simples. Quem tem tensão alta, problemas de rins ou toma medicação crónica deve falar com o médico antes de trocar. A tensão arterial, aliás, é das coisas que os portugueses mais medem, sobretudo os menos escolarizados.
Por Marta Carneiro
Imagem: N509FZ / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)