Netanyahu recusa retirar de Gaza antes de o Hamas entregar todas as armas
O acordo anunciado por Washington previa desarmamento e retirada a par. O primeiro-ministro israelita diz que a ordem é outra e que Israel nunca subscreveu esses termos.
O acordo que a administração Trump anunciou como avanço para acabar com a guerra em Gaza durou poucos dias antes de esbarrar em Jerusalém. Benjamin Netanyahu veio dizer que Israel não sai das linhas onde está enquanto o Hamas não estiver completamente desarmado, e que não assinou nada que ligasse as duas coisas.
O anúncio de Washington descrevia um processo simultâneo. O Hamas começaria a entregar armas, Israel suspenderia os ataques e iniciaria a retirada dos cerca de 60 por cento do território de Gaza que hoje controla. Era essa simultaneidade que fazia do acordo um acordo.
Netanyahu recolocou a sequência: primeiro o desarmamento, depois se fala de retirada. Num vídeo publicado nas suas redes, deixou a frase que interessa, a de que esta é a posição israelita, e acrescentou que Israel não aceitou os termos apresentados pelo chamado Board of Peace.
Uma fricção pública rara com a Casa Branca
O detalhe político não é pequeno. Netanyahu passou dois anos a alinhar-se publicamente com a Casa Branca de Trump, e discordar em cima de um anúncio presidencial é coisa que não fazia. Enfrenta eleições em outubro, com uma direita que não perdoaria uma retirada apresentada como concessão.
Do outro lado, o Hamas tinha aceitado entregar as armas nos termos do plano que Washington divulgou há uma semana, o que na altura pareceu o desbloqueio que faltava. Se a ordem das operações passa a ser matéria de disputa entre Israel e o seu principal aliado, o calendário deixa de existir.
Para Portugal e para a União Europeia, o efeito imediato é sobre o que sobra da ajuda humanitária e sobre a pressão nos preços da energia, que já subiu com o conflito no Médio Oriente. Nada disso se resolve enquanto a primeira pergunta continuar a ser quem se mexe primeiro.
Imagem: Dan Scavino / Casa Branca (domínio público)