O PS admite viabilizar o Orçamento de 2027 (e votar contra quem quiser derrubar o Governo)
José Luís Carneiro está disposto a deixar passar o próximo Orçamento e a chumbar moções de censura, mas põe condições: revisão constitucional com o PS como parceiro e garantia pública de que o primeiro-ministro não negoceia isso com o Chega.
Há um número que explica quase tudo o que o PS anda a fazer neste verão: 2025. Foi o ano em que o partido teve o terceiro pior resultado da sua história, depois de duas moções de censura chumbadas terem aberto caminho a uma moção de confiança que o PS derrubou, e daí a eleições.
É essa memória que está por trás da posição que a direção socialista deixou passar esta semana. José Luís Carneiro admite viabilizar o Orçamento do Estado para 2027 e admite também votar contra moções de censura que apareçam nesta legislatura. Por outras palavras: não é o PS que vai deitar abaixo o Governo de Luís Montenegro nos próximos meses.
A leitura interna é simples e pouco romântica. O partido precisa de pelo menos mais um ano para consolidar a proposta política que está a reconstruir e para recuperar eleitorado que se afastou. Ir a votos agora seria fazê-lo com a casa a meio de obras.
O que o PS pede em troca
A disponibilidade não é incondicional. Carneiro pôs várias condições em cima da mesa, e a mais estrutural é a revisão constitucional: quer que a AD avance com ela tendo o PS como parceiro privilegiado, e quer que o primeiro-ministro garanta publicamente que não vai buscar o Chega para esse trabalho.
É uma exigência com dois efeitos ao mesmo tempo. Dá ao PS um papel que nenhuma sondagem lhe dá neste momento, e obriga a AD a escolher em público entre um acordo ao centro e um acordo à direita. Nas prioridades que o partido já tinha posto por escrito para o Orçamento de 2027 as pensões apareciam no mesmo lote.
O que isto muda no calendário
Na prática, retira do horizonte imediato o cenário de crise política que andou a ser desenhado em julho. O Governo ganha margem para chegar ao Orçamento sem a ameaça permanente de queda, e a oposição à direita perde o parceiro de que precisaria para uma censura eficaz.
Não é um cheque em branco, e a direção do PS não esconde que está de olho na crise seguinte. Mas é uma mudança de tom relevante num Parlamento onde, há poucas semanas, metade dos portugueses já dizia querer o Orçamento viabilizado. O trabalho parlamentar de outono, incluindo o calendário de votações, está publicado no portal da Assembleia da República.
Imagem: Comité das Regiões Europeu / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)