Pode um senhorio cobrar 2.000 euros de renda e não pagar IRS? Em Lisboa, num T5, pode
A Portaria 454/2026/1 fixou os tetos de renda do Regime Simplificado de Arrendamento Acessível nos 308 concelhos. Abaixo deles, a renda fica isenta de IRS e IRC. Só Lisboa passa os 2.000 euros (T5, 2.066), e em metade do país o teto de um T2 fica abaixo dos 480 euros.
Sim, é possível. Um senhorio que arrende um T5 em Lisboa por 2.000 euros por mês pode não pagar um cêntimo de IRS sobre essa renda, desde que o contrato entre no Regime Simplificado de Arrendamento Acessível (RSAA). A pergunta andou pelas pesquisas do Google este sábado, e a resposta está numa tabela publicada há duas semanas.
Essa tabela é a Portaria n.º 454/2026/1, de 13 de outubro, que fixa o teto de renda por tipologia em cada um dos 308 concelhos do país. Até ela sair, o regime funcionava com os limites antigos de 2019. Abaixo do teto, a renda fica isenta de IRS ou de IRC, sem data de fim enquanto o contrato cumprir as regras.
Lisboa é o único concelho acima dos 2.000 euros
Lemos o anexo linha a linha. Em Lisboa, os tetos vão de 785 euros para um T0 a 2.066 euros para um T5, passando por 1.006 (T1), 1.309 (T2), 1.612 (T3) e 1.763 (T4). Mais nenhum concelho chega aos 2.000 euros num T5: Cascais fica-se pelos 1.980, Oeiras pelos 1.850 e o Porto pelos 1.715.
Há duas formas de subir o teto. A portaria soma 10% se a casa tiver estacionamento privativo e outros 10% se tiver certificado energético A ou superior. Com garagem e classe A, um T4 em Lisboa também passa a fasquia dos 2.000.
Para casas maiores do que um T5, a regra é somar um valor fixo por cada divisão a mais: 150 euros em Lisboa, 100 no Porto, em Cascais e em Oeiras, e menos no resto do país.
Metade do país fica abaixo dos 480 euros
O outro lado da tabela conta uma história diferente. Só sete concelhos permitem mais de 1.000 euros por um T2: Lisboa, Cascais, Oeiras, Porto, Sines, Funchal e Almada. A mediana dos 308 tetos para um T2 é de 479,50 euros, e em 160 concelhos o limite fica abaixo dos 500. O mais baixo, 392 euros, aparece em vários concelhos do interior, como Aguiar da Beira.
Na prática, isto quer dizer que a isenção total é mais fácil de aproveitar onde o mercado já pratica rendas perto do teto. Onde a renda livre está muito acima, o senhorio tem de decidir se vale a pena baixar o preço para deixar de pagar imposto.
A conta contra a taxa de 10%
Quem não entra no regime tem desde este ano uma alternativa mais leve: rendas habitacionais até 2.300 euros por mês podem ser tributadas à taxa autónoma de 10%, uma medida que dura até ao fim de 2029. Já tínhamos feito as duas contas que o senhorio tem de fazer quando o regime arrancou, a 1 de setembro. Agora há números para lhes pôr.
Um T5 em Lisboa a 2.000 euros por mês rende 24.000 euros por ano. À taxa de 10%, seriam 2.400 euros de IRS. No RSAA, zero. Num T2 em Lisboa no limite, 1.309 euros, a poupança anual face aos 10% é de cerca de 1.571 euros.
O que é preciso para entrar
Os contratos de residência permanente têm de durar pelo menos três anos. Para residência temporária (estudantes ou trabalhadores deslocados) o mínimo é de três meses, renováveis. Também se podem arrendar quartos, com um teto proporcional à área do quarto, mais 25% se tiver casa de banho privativa.
A adesão faz-se na plataforma do IHRU, que segundo a portaria terá também uma calculadora para as majorações e para os quartos. O comprovativo tem de chegar às Finanças até 15 de janeiro do ano seguinte ao da assinatura do contrato. Se a renda passar o teto, o senhorio perde o benefício e paga o imposto em falta com juros.
Os tetos são revistos todos os anos a 1 de janeiro. Para seguir os preços que estão por trás deles, o nosso acompanhamento dos preços das casas é atualizado a cada novo número.
Ilustração: Tugadaily