Onde o país travou nas licenças de construção (e os dois sítios onde não travou)
O INE contou 6.162 edifícios licenciados no segundo trimestre, menos 7,1% num ano. A Grande Lisboa caiu 35,1%, o Algarve 24,9% — e só a Madeira e o Norte fecharam o trimestre em alta.
Entre abril e junho, as câmaras do país emitiram licença a 6.162 edifícios. É menos 7,1% do que no mesmo trimestre de 2025 e, por estranho que pareça, é uma boa notícia comparada com o início do ano, quando a queda ia nos 9,7%.
O detalhe que interessa a quem anda à procura de casa está mais abaixo na tabela. Nos fogos de habitação familiar em construção nova, o licenciamento subiu 10,8%, para 11.834. Ou seja: licenciam-se menos edifícios, mas os edifícios que se licenciam têm mais casas dentro. Prédios em vez de moradias, essencialmente.
Quem caiu e quem não caiu
O mapa é o mais desigual dos últimos trimestres. Só duas regiões fecharam em alta — a Madeira, com 25,2%, e o Norte, com uns residuais 0,2%. Tudo o resto desceu, e desceu com força onde a procura aperta mais: Grande Lisboa perdeu 35,1% dos edifícios licenciados, o Algarve 24,9% e a Península de Setúbal 20,3%.
No Alentejo aconteceu o contrário do que os números sugerem à primeira vista. Licenciaram-se lá 295 edifícios, menos 8,1%, mas a área total licenciada disparou 259,9%, de 129.047 para 464.477 metros quadrados. O INE atribui o salto à área licenciada para indústria transformadora em Sines. É o mesmo concelho que tem andado a puxar o litoral alentejano em quase todas as estatísticas deste ano.
As obras que acabaram contam outra história
Nas obras concluídas, o sinal inverte-se. Foram terminados 3.878 edifícios, menos 4,2%, mas 7.437 fogos novos de habitação familiar, mais 11,6% num ano. É construção que arrancou há dois ou três anos a chegar agora ao mercado, e não uma resposta ao presente.
Norte e Centro concentraram 57,9% dos edifícios concluídos e 60,2% dos fogos novos. Quem esperava que o esforço fosse para onde as rendas doem mais fica com uma conta difícil de fazer bater certo.
Nada disto ajuda quem procura casa já, mas ajuda a perceber o que aí vem. E vale a pena cruzar com as novas regras de licenciamento de obras, que deviam ter entrado em vigor a 3 de agosto e acabaram adiadas para outubro — parte desta travagem é burocracia à espera de um regime novo.
Os quadros completos estão na secção de Construção e Habitação do INE.
Gráfico: Tugadaily, com dados do INE