O troço de alta velocidade que ninguém quis construir em 2024 tem agora duas propostas
O concurso da concessão Oiã-Soure foi extinto há dois anos por falta de propostas válidas e relançado em janeiro. Abriram duas: 2.038 milhões de euros do consórcio da Sacyr com a DST e a Alberto Couto Alves, e 2.300 milhões do agrupamento liderado pela Mota-Engil. O preço vale 80 por cento da decisão.
Em julho de 2024, a Infraestruturas de Portugal pôs a concurso a concessão do troço entre Oiã e Soure da linha de alta velocidade Porto-Lisboa. Não recebeu uma única proposta válida e o procedimento foi extinto. Em janeiro deste ano, depois de o Governo mandatar a IP para rever tudo, o concurso foi relançado com o processo reformulado. Desta vez apareceram duas.
Entre elas há 262 milhões de euros. O consórcio liderado pela espanhola Sacyr, com a portuguesa DST e a Alberto Couto Alves, propôs 2.038 milhões. O agrupamento Lusolav, encabeçado pela Mota-Engil e com Teixeira Duarte, Alves Ribeiro, Casais, Conduril e Gabriel Couto, propôs 2.300 milhões. O preço pesa 80 por cento na decisão de adjudicação, o que deixa aos restantes critérios uma margem estreita para inverter a ordem.
O caderno de encargos da IP fixa um valor máximo autorizado de 1.603 milhões de euros para o contrato de concessão, expresso em valor atual líquido reportado a dezembro de 2023. É uma base de cálculo diferente da dos preços propostos, por isso a subtração direta não diz o que parece dizer.
O que este troço inclui
São cerca de 61 quilómetros de linha nova entre Oiã e Soure, com ligações à Linha do Norte nas imediações de Oiã, da Adémia e de Taveiro. A estação de Coimbra B é adaptada à alta velocidade e a Linha do Norte é quadruplicada no troço entre Taveiro e Coimbra B. Cerca de 25 quilómetros do traçado ficam em pontes e viadutos.
A concessão dura 30 anos, com um período de desenvolvimento e construção estimado em cinco anos e meio. A obra deve arrancar em 2027.
É a segunda peça, não a primeira
A primeira, entre o Porto e Oiã, já tem dono: o contrato foi assinado em julho de 2025 com o consórcio Avan Norte. Falta depois a ligação a Lisboa, que é a fase seguinte.
E faltam os comboios, que correm num concurso à parte, com a Alstom já comprometida com uma fábrica de manutenção em Matosinhos para o material circulante que vier a ganhar. Linha, comboios e operação são três decisões distintas, e, como se viu no processo das subconcessões da linha de Cascais, a ferrovia portuguesa raramente as toma ao mesmo ritmo.
Por Beatriz Mota
Imagem: 69joehawkins / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)