O Governo abriu caminho a uma fábrica de Super Tucano em Beja. Os 12 aviões portugueses não precisam dela
O Conselho de Ministros reconheceu interesse público nacional na instalação de uma linha de montagem final do A-29N na Base Aérea n.º 11. Não é um contrato assinado nem uma primeira pedra.
Na reunião de 20 de agosto, o Conselho de Ministros reconheceu o interesse público nacional na instalação de uma linha de montagem final dos A-29N Super Tucano em Portugal, apontando, em determinadas condições, para as instalações da Base Aérea n.º 11, em Beja.
Vale a pena separar o que a decisão é do que ela não é. Reconhecer interesse público nacional é um instrumento administrativo: destrava procedimentos, sinaliza prioridade e facilita licenciamentos. Não é um contrato assinado com a Embraer. Não é um calendário de obra, nem dinheiro no terreno.
Os aviões que Portugal comprou já vêm feitos
A Força Aérea Portuguesa encomendou 12 A-29N. Os primeiros cinco foram entregues a 17 de dezembro do ano passado, nas instalações da OGMA em Alverca, na mesma cerimónia em que o Ministério da Defesa Nacional e a Embraer assinaram a carta de intenção para a unidade de Beja. Os restantes chegam ao longo dos próximos dois anos, do Brasil.
A linha de Beja, portanto, não nasce para servir a encomenda portuguesa. Nasce para o que possa vir a seguir.
O que muda é a morada, não o avião
O cálculo é comercial e geográfico ao mesmo tempo. Vários países europeus andam à procura de aviões de ataque ligeiro e treino avançado que custem uma fração de um caça a jato, e a Embraer tem um produto testado para esse lugar. O que não tinha, até agora, era uma resposta europeia para quem prefere comprar dentro da NATO. Uma linha de montagem final em solo de um Estado-membro muda essa conversa sem mudar o avião.
Portugal não entra nesta história do nada. A Embraer detém uma participação na OGMA, mantém um centro de engenharia em território português e boa parte da produção do KC-390 já passa por cá. Beja é o passo seguinte da mesma relação, e junta-se ao punhado de apostas industriais que o país tem vindo a fazer fora de Lisboa e do Porto, da fábrica que promete 600 postos de trabalho na Figueira da Foz ao crescimento da Tekever no mercado europeu de drones militares.
Falta a parte difícil
Em abril, o ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, descreveu o processo como estando bem encaminhado e apontou o final deste ano para o concretizar, com obras de adaptação de um edifício já identificado a seguir-se. Sobre a localização exata foi menos preciso: dentro da base ou em terrenos contíguos ao terminal civil do aeroporto, mas sempre dentro do perímetro de Beja.
Para o Alentejo, a promessa é emprego qualificado numa região que exporta jovens há décadas, e que já tem vagas do Estado por preencher noutras áreas. Para a base, é uma segunda vida para instalações pensadas há anos para construir aviões e que nunca chegaram a fazê-lo.
Nada disso está garantido. Entre uma deliberação do Conselho de Ministros e um avião a sair de um hangar em Beja vai um contrato, um investimento e um comprador. Por agora, existe o primeiro.
Por Beatriz Mota
Imagem: Sebastián Laguna Ramos / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)