O dono da Zara vendeu a sua posição na REN. Quem ficou com ela foi o Estado
A Pontegadea, holding de Amancio Ortega, acordou vender 91.723.676 ações à Parpública, 13,7% do capital. O negócio depende do visto do Tribunal de Contas e o valor não foi divulgado.
Doze anos depois de ter saído do capital da REN, o Estado português está de volta. A Pontegadea Inversiones, a holding de Amancio Ortega, celebrou um contrato com a Parpública para vender 91.723.676 ações da REN, correspondentes a 13,7% do capital. O negócio foi comunicado ao mercado a 14 de agosto e está condicionado ao visto do Tribunal de Contas. O valor não foi divulgado por nenhuma das partes.
A Pontegadea era a segunda maior acionista da gestora das redes de eletricidade e gás, atrás da chinesa State Grid. Sai por inteiro.
O argumento do Governo
Luís Montenegro justificou a operação com a defesa do interesse estratégico numa infraestrutura crítica, e foi rápido a fechar a porta a leituras mais ambiciosas: “Não fazemos isto para renacionalizar.” O objetivo declarado é participar nas decisões de investimento e nas escolhas estratégicas da empresa, num setor em que o preço da energia é assunto político permanente.
Apresentou também o negócio como investimento com retorno. A REN tem remunerado os acionistas com dividendos na ordem dos 4,5% ao ano, acima do custo a que o Estado se financia — uma diferença que, no papel, paga a operação. E enquadrou a compra no fundo soberano que o Governo prepara para entrar no capital de empresas consideradas estratégicas.
O que fica por explicar
O preço, para começar. Sem valor divulgado não é possível avaliar se o Estado comprou bem ou mal, e a comparação com a cotação em bolsa no dia do acordo é o único termo de referência disponível. O PS já pediu explicações sobre a forma como o Governo adquiriu a posição.
Fica também por explicar como se articula esta entrada com a presença da State Grid no capital, e que peso terá a Parpública nas decisões de investimento numa empresa regulada, onde a margem é fixada pelo regulador e não pelo acionista. Os comunicados da empresa ao mercado são publicados na área de comunicados CMVM da REN.
A operação chega numa altura em que a rede portuguesa tem estado no centro de boas notícias: em julho, o solar foi pela primeira vez a maior fonte de eletricidade do país, segundo dados da própria REN. E soma-se a outro dossiê em que o Estado está a decidir o desenho acionista de uma empresa grande, a privatização da TAP e as propostas vinculativas da Air France-KLM e da Lufthansa.
Por Beatriz Mota
Imagem: Fernando Moital / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)