Portugal não tem manuais para dizer à população o que fazer numa crise (os últimos são dos anos 60)
Um estudo prospetivo da EuroDefense Portugal, coordenado pelo general Luís Valença Pinto, conclui que o país abandonou os planos de preparação civil que existiam nas décadas de 50 e 60 e não construiu nada no lugar deles.
Se amanhã houvesse um apagão prolongado, um ataque a infraestruturas críticas ou uma emergência de segurança nacional, a maioria dos portugueses não teria onde ir buscar instruções. Não há folheto, não há manual, não há plano público que explique o que fazer. É essa a conclusão desconfortável de um estudo prospetivo da EuroDefense Portugal sobre capacidades das Forças Armadas e economia de defesa no horizonte de 2035, coordenado pelo general Luís Valença Pinto, antigo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.
O ponto do estudo não é alarmista. É administrativo, e por isso mais incómodo: o país já teve estruturas destinadas a preparar a sociedade para crises graves, nas décadas de 50 e 60, e desmontou-as sem substituir por nada equivalente.
O que o estudo pede
Uma doutrina nacional que articule quatro coisas que hoje funcionam em separado: a resposta das Forças Armadas, a das instituições públicas, a da sociedade civil e a dos setores essenciais da economia. Valença Pinto defende que é preciso abandonar a mentalidade de período de paz e assumir um contexto internacional de confronto permanente, instabilidade geopolítica e ameaças novas — das ciberoperações à disrupção de cadeias de abastecimento.
Vários países europeus já foram por aí. A Suécia distribui há décadas um folheto a todos os agregados familiares sobre o que fazer em caso de crise ou guerra, e a Finlândia mantém reservas estratégicas e abrigos como política de Estado. Portugal, que tem debatido sobretudo quanto gastar em defesa e com que calendário, quase não discutiu a parte que toca diretamente às pessoas.
Porque é que isto aparece agora
O estudo insere-se num debate europeu que se acelerou nos últimos dois anos, com a NATO e a União Europeia a pressionarem os Estados-membros a olhar para a resiliência civil como parte da defesa e não como um apêndice dela. A Comissão Europeia chegou a recomendar que cada cidadão tenha em casa mantimentos e água para 72 horas.
Portugal já não tem o conforto geográfico que teve durante décadas, argumenta o general. A resposta a isso, diz o trabalho da EuroDefense, não se compra apenas em equipamento — passa por reconstruir uma estrutura pensada para preparar a sociedade. O documento e o trabalho da associação estão disponíveis no estudo da EuroDefense sobre capacidades das Forças Armadas e economia de defesa em 2035.
Por Marta Carneiro
Imagem: EuroDefense Portugal