Caiu a ilha no meio do Bab el-Mandeb. No outro estreito, seis mil marítimos continuam presos
Forças Huthi chegaram na sexta-feira a Perim, a ilha que parte em duas o corredor de entrada no mar Vermelho. Em Ormuz, a contagem da Organização Marítima Internacional vai em 21 navios atacados e dez marítimos mortos desde fevereiro.
Visto de Lisboa, o mar Vermelho parece um assunto de outra gente. Não é. É por ali que entra em direção à Europa boa parte do que vem da Ásia, e na sexta-feira o corredor ficou mais apertado. Forças Huthi chegaram a Perim, a ilha desabitada que divide o Bab el-Mandeb em duas vias de navegação, depois de as tropas do governo iemenita se retirarem. No dia anterior tinham tomado o porto de Mocha, na mesma costa. Quem tem Perim decide, na prática, quem passa.
No outro extremo da rota, o estreito de Ormuz está fechado ao tráfego normal desde 28 de fevereiro, quando começou a ofensiva norte-americana e israelita contra o Irão. A contabilidade é conhecida e é dura: a Organização Marítima Internacional confirma 21 navios comerciais atacados e dez marítimos mortos desde o início do conflito, com cerca de 400 navios e seis mil tripulantes impedidos de sair do Golfo Pérsico em segurança. O plano de evacuação que a organização preparou continua suspenso.
Quem se senta à mesa em Salalah?
É esse impasse que explica a reunião de segunda-feira. Os chefes da diplomacia do Conselho de Cooperação do Golfo devem encontrar-se com o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros em Salalah, no sul de Omã, no primeiro encontro deste nível desde que a guerra começou. Omã e o Irão são os dois países ribeirinhos de Ormuz e já tinham criado em junho uma comissão conjunta sobre o estreito; a ideia agora é fixar uma rota partilhada e comunicá-la à Organização Marítima Internacional, que é quem regista este tipo de esquemas de separação de tráfego.
Nem todos vão. O Barém anunciou no sábado que não participa em encontros coletivos com o Irão enquanto não forem restabelecidas as relações diplomáticas, cortadas em 2016. Manama apontou ao ataque desta semana ao oleoduto Este-Oeste, na Arábia Saudita, e a um depósito de amoníaco em território bareinita, e defendeu que Ormuz tem de ficar aberto sem taxas, autorizações nem discriminação. A Arábia Saudita retomou relações com Teerão em 2023. O Barém nunca o fez.
O que é que isto muda para Portugal?
Pelo lado da energia, quase tudo. Praticamente todo o gás natural que entrou no país no ano passado desembarcou no terminal de Sines, e esse gás chega em navios que fazem exatamente estas rotas. O Brent caiu mais de 3 por cento na sexta-feira assim que a reunião de Salalah foi noticiada, o que diz menos sobre a paz e mais sobre o alívio de imaginar um corredor negociado.
Um aviso, porque a semana foi de notícias rápidas: nada disto está assinado. Uma coisa é marcar uma reunião, outra é sair dela com uma rota que os armadores aceitem usar.
Por Marta Carneiro
Imagem: Michael Kleiner / Wikimedia Commons (domínio público)