A Arábia Saudita travou a reunião de Salalah sobre o Estreito de Ormuz
O encontro entre o Irão, o Iraque e os países do Golfo estava marcado para segunda-feira. Foi adiado na véspera, sem nova data, depois de Riade apresentar emendas à proposta que Teerão e Mascate já tinham fechado.
A reunião que devia desenhar corredores de navegação no Estreito de Ormuz não chegou a acontecer. Estava marcada para segunda-feira, na cidade portuária de Salalah, no sul de Omã, e foi adiada no domingo à noite. Sem nova data.
O anúncio veio do próprio anfitrião. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Omã comunicou o adiamento do encontro regional de Salalah, invocando a necessidade de criar as condições certas para um diálogo construtivo, e o chefe da diplomacia omanita, Badr Albusaidi, enquadrou a decisão como uma questão de consenso.
À mesa deviam estar o Irão, o Iraque e cinco dos seis países do Conselho de Cooperação do Golfo: a Arábia Saudita, os Emirados, o Qatar, o Kuwait e o próprio Omã.
Quem bloqueou não foi quem se esperava
Aqui está a parte que merece atenção. O Bahrein já tinha dito que não ia, e disse-o em voz alta: não participa em encontros coletivos com o Irão enquanto não houver relações diplomáticas restabelecidas, e considera que a segurança regional não se defende com apaziguamento. Só que a ausência do Bahrein estava contabilizada. A reunião seguia na mesma sem ele.
Quem a travou foi a Arábia Saudita, que ia estar presente. O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano apontou diretamente a objeção saudita como a razão do adiamento. Riade terá apresentado emendas à proposta irano-omanita, receando que a redação acabasse por consagrar um novo statu quo no estreito que lhe seria difícil aceitar.
O contexto ajuda a perceber a irritação. Dias antes, a Arábia Saudita fechou o seu oleoduto Leste-Oeste depois de ataques de drones vindos do Iraque, e tem sido alvo repetido dos huthis, que no fim de semana tomaram a costa do mar Vermelho no Iémen.
O que estava em cima da mesa
O Irão e Omã são os dois únicos países com águas territoriais no estreito, o que explica por que são eles a redigir a proposta. Pelo que foi avançado, o corredor de entrada passaria por águas iranianas e o de saída sobretudo por águas omanitas, com pequenos troços ainda iranianos. Estava prevista a hipótese de portagens voluntárias para financiar navegação, proteção ambiental e operações de busca e salvamento.
Teerão tem repetido que nada disto significa reabrir Ormuz. É um sistema de tráfego preparado para o dia em que as condições existam, não a declaração de que existem.
Fica por resolver a parte verificável, que é a que nos interessa seguir: o registo. Na segunda-feira, o porta-voz do MNE iraniano disse que Teerão e Mascate ainda vão decidir como anunciar ou registar o acordo. Ou seja, não há notificação nenhuma depositada, e sem isso um armador não tem rota que possa usar com segurança jurídica. Para a Europa, e para os preços da energia que chegam a Portugal, é esse papel que conta, não a fotografia da cimeira.
Por Marta Carneiro
Imagem: Balou46 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)