Portugal convocou o embaixador russo depois do ataque com drone ao aeroporto de Leipzig
Berlim atribuiu à Rússia o ataque falhado de 4 de agosto ao aeroporto de Leipzig-Halle. Lisboa chamou o embaixador na quarta-feira, Paris fez o mesmo e Bruxelas prepara mais 1.600 designações de sanções.
O embaixador da Rússia em Lisboa foi chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros na manhã de quarta-feira. O anúncio foi feito pelo ministro Paulo Rangel à chegada à reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, no condado de Wicklow, na Irlanda, e o motivo estava a 2.500 quilómetros dali: um drone carregado com explosivos que tentou atingir o aeroporto de Leipzig-Halle a 4 de agosto.
O ataque falhou. A atribuição demorou quase um mês. Na terça-feira, o Governo alemão responsabilizou formalmente a Rússia, depois de a investigação apontar para os serviços secretos russos. Moscovo nega, e Vladimir Putin diz que as provas foram plantadas.
Porquê Leipzig
Leipzig-Halle não é um aeroporto qualquer. É uma das maiores plataformas de carga aérea da Europa, base do hub europeu da DHL, e tem servido de ponto de trânsito para o material de apoio militar que segue para a Ucrânia. Um drone com explosivos ali não é vandalismo; é uma tentativa de tocar na logística que sustenta a guerra do outro lado.
Foi essa leitura que Bruxelas fez em voz alta. Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, disse que o caso tem todas as marcas de terrorismo patrocinado por um Estado, e adiantou que os Estados-membros já convocaram embaixadores russos e vão ponderar novas sanções sobre ativos militares. A União Europeia prepara mais 1.600 designações dirigidas ao complexo militar-industrial russo, que se somam ao pacote já em vigor no âmbito das sanções europeias contra a Rússia.
O que Portugal fez, e o que isso significa
Convocar um embaixador é o degrau formal abaixo da expulsão: obriga o representante a comparecer e a ouvir uma posição por escrito. França fez o mesmo com o encarregado de negócios russo em Paris, para protestar de forma veemente. Rangel antecipou que a resposta europeia seria muito forte e que dela sairiam medidas concretas.
Para Portugal, a distância geográfica é enganadora. O país tem vindo a puxar a sua fatia da defesa europeia para o lado onde tem vantagem — o Atlântico e o espaço —, e é por aí que Portugal está a levar satélites próprios para a NATO. Ataques híbridos a infraestruturas civis, do género do de Leipzig, são exatamente o tipo de ameaça que essa aposta diz querer vigiar.
A reunião de Wicklow fechou sem sanções aprovadas. Isso acontece na próxima ronda formal, e é aí que se vai perceber se as 1.600 designações resistem à unanimidade.
Por Marta Carneiro
Imagem: MarcelX42 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)