O relatório final sobre o Ascensor da Glória estava marcado para 3 de setembro. Só deve sair em 2027
O GPIAAF formalizou seis recomendações de segurança, quatro à Carris e duas ao IMT, e ambas as entidades aceitaram-nas. As conclusões sobre as causas do acidente ficam para o fim do primeiro trimestre de 2027.
A 3 de setembro faz um ano que o Ascensor da Glória descarrilou na descida para os Restauradores. Morreram 16 pessoas e 23 ficaram feridas. Essa data era também o prazo que o gabinete de investigação tinha para publicar o relatório final, e o prazo não vai ser cumprido: o GPIAAF anunciou que as conclusões só devem chegar no fim do primeiro trimestre de 2027, invocando a complexidade das perícias técnicas ainda em curso.
Em vez do relatório, o gabinete fez outra coisa. Formalizou seis recomendações de segurança — quatro dirigidas à Carris, duas ao Instituto da Mobilidade e dos Transportes — e ambas as entidades já as aceitaram por escrito.
O que o GPIAAF pediu à Carris
Uma das recomendações manda rever o sistema de controlo interno na aquisição, receção e aplicação de componentes críticos para a segurança dos veículos. É uma frase seca, mas aponta para o cabo: o relatório preliminar, publicado em outubro de 2025, tinha detetado desconformidades no processo de compra dos cabos de tração, sem conseguir dizer se pesaram no acidente.
A segunda pede uma revisão crítica do sistema de gestão da segurança do modo elétrico, ascensores incluídos, com uma avaliação dos riscos que a operação coloca aos passageiros e a terceiros. A Carris respondeu com uma auditoria externa à manutenção do modo elétrico, um projeto de conformidade do sistema integrado de gestão e um projeto de categorização de materiais.
Ao IMT couberam duas recomendações, aceites de imediato e encaminhadas para o diploma sobre sistemas metropolitanos e elétricos que estava a ser preparado. O enquadramento legal dos ascensores é, aliás, um dos pontos em que a Carris discordou publicamente do relatório preliminar: a empresa alega que a regulação técnica e a supervisão dos ascensores da Glória e do Lavra competem ao regulador, não ao operador.
E o processo-crime
Correm em paralelo duas coisas que é preciso não confundir. A investigação do GPIAAF procura causas e não culpados — é a regra em investigação de segurança. O inquérito criminal é outro processo, e nele já há três arguidos: o antigo diretor de manutenção do modo elétrico da Carris, o gerente da empresa que fazia a manutenção e a própria empresa. Ser arguido é um estatuto processual que garante direitos de defesa. Não é uma condenação.
Entretanto os ascensores da Glória e do Lavra continuam parados. Uma comissão com representantes do LNEC, do Instituto Superior Técnico e da Ordem dos Engenheiros está a avaliar as condições de reabertura dos elevadores de Lisboa, e é dessa avaliação, mais do que do relatório do GPIAAF, que depende a data em que a Calçada da Glória volta a ter uma cabina amarela a subir. Sobre a rede da cidade, escrevemos também quando o metro do Cais do Sodré fechou em agosto e sobre o atropelamento mortal em Agualva-Cacém.
Por Marta Carneiro
Imagem: Jorge Franganillo / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)