Metade do território da UE esteve em seca em julho, e já ardeu mais este ano do que no ano passado
O boletim do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, de 12 de agosto, aponta 50% do território da UE e do Reino Unido em seca durante julho e 505.683 hectares ardidos até 5 de agosto, contra 379.392 na mesma data de 2025.
Metade do território da União Europeia e do Reino Unido esteve sob algum nível de seca durante julho. O número sai do boletim que o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia publicou a 12 de agosto, e vem acompanhado de outro, mais duro: até 5 de agosto tinham ardido 505.683 hectares no espaço comunitário, contra 379.392 na mesma data do ano passado.
Vale a pena separar as duas escalas que os cientistas usam. Metade do território está em seca contando os três patamares juntos — vigilância, aviso e alerta. O patamar de alerta, o mais grave, o que significa que já há vegetação visivelmente em stress e culturas afetadas, cobria 9% em julho.
Para perceber se isso é muito, o boletim dá dois anos de comparação. Em 2018 e em 2022, dois verões que ficaram na memória de meia Europa, a seca no mesmo período do ano chegava a 54% e a 60% do território. Ou seja: 2026 não é o pior ano de sempre. Mas em nível de alerta 2026 está nos 9%, perto dos 11% de 2022 e muito acima dos 3% de 2018.
Os rios são o sintoma mais visível
Quatro dos grandes rios europeus — Loire, Pó, Reno e Danúbio — chegaram em agosto a níveis mínimos de registo. Isso não é paisagem. Na Hungria e na Roménia, a navegação no Danúbio foi interrompida. Em França, a produção nuclear caiu porque não há água de arrefecimento suficiente. No norte de Itália, a bacia do Pó voltou ao stress hidrológico que já conhece bem.
E há o custo humano, que continua a ser contabilizado. A Organização Mundial de Saúde reportou mais de 10 mil mortes em excesso apenas em cinco países durante os episódios de calor mais extremos deste verão.
Onde Portugal entra nesta conta
A resposta europeia mede-se em ativações do serviço de emergência do Copernicus, que produz mapas rápidos para quem está no terreno. Desde o início de junho houve 30 ativações ligadas a incêndios, e Portugal está na lista, ao lado da Grécia, Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, Croácia, Tunísia, Sérvia, Albânia e Gronelândia. Cinco continuam abertas.
Cá dentro os números já vinham a subir: a área ardida tinha passado os 30 mil hectares em julho, e o mês fechou como o julho mais seco deste século. O grosso dos grandes fogos do último mês, porém, concentrou-se em Espanha e em França.
O aviso que fecha o boletim é o que interessa às próximas semanas. As previsões apontam tempo mais quente e mais seco do que o normal na Europa central e ocidental até setembro, com risco continuado de ondas de calor em agosto — mas, ao contrário do resto do continente, espera-se que o Mediterrâneo seja mais húmido do que o habitual. O ano de 2025 fechou com 1.034.552 hectares ardidos, o pior registo de sempre na UE, e os cientistas lembram que foi precisamente entre 5 e 19 de agosto que arderam então as grandes manchas em Espanha e em Portugal. A distância entre os dois anos pode encurtar depressa.
Por Marta Carneiro
Infografia: Tugadaily · dados EFFIS / Copernicus