Ganha o salário médio? Na Grande Lisboa isso dá para menos de 50 metros quadrados
Um atlas publicado no Journal of Maps por dois investigadores da TU Wien cruzou mais de 22 milhões de anúncios em mais de 30 países. Portugal aparece entre os mercados mais fechados da Europa, e a Área Metropolitana de Lisboa no grupo dos piores.
A pergunta que este estudo faz é mais útil do que a habitual. Não é quanto custa uma casa. É quantos metros quadrados compra um salário médio local, se um terço do rendimento for para um crédito a trinta anos.
Feita assim a conta, a Área Metropolitana de Lisboa fica no grupo das regiões europeias onde um salário médio não chega para 50 metros quadrados. Portugal surge, no conjunto, entre os países mais difíceis do continente para comprar casa com o ordenado do país, ao lado dos Países Baixos e da Suíça.
De onde vêm os números
O trabalho é de Franziska Sielker e Selim Banabak, do Instituto de Planeamento Espacial da Universidade Técnica de Viena, e saiu a 2 de setembro no Journal of Maps. A base são mais de 22 milhões de anúncios imobiliários recolhidos pelo projeto HOUSE4ALL da rede ESPON em mais de 30 países, entre março de 2024 e março de 2025.
À escala europeia, o resultado é sombrio de forma bastante uniforme: mais de 70% da população vive em regiões onde um crédito a trinta anos compra até 75 metros quadrados. Perto de metade só consegue comprar o equivalente a um T0 ou T1. E 39% não conseguem sequer arrendar uma casa desse tamanho.
O mapa português tem duas metades
Cá dentro, a linha divisória é a costa. Lisboa, Porto, o Algarve e vários concelhos do litoral entre Setúbal e Braga aparecem nos níveis mais baixos de acessibilidade. O interior Norte, o Centro e o Alentejo continuam consideravelmente mais acessíveis — o que não é boa notícia se a razão for haver menos gente e menos emprego.
Os autores apontam a mesma combinação para os pontos críticos de toda a Europa: salários locais relativamente baixos e preços puxados por turismo, segunda habitação e investimento internacional. Regiões costeiras e de montanha, por toda a parte, são as menos acessíveis.
Os dados do INE dizem o resto. No primeiro trimestre de 2026, o preço mediano das casas vendidas na Grande Lisboa foi de 4.322 euros por metro quadrado, contra 3.899 no Algarve e 2.337 no conjunto do país. É por isto que as vendas abrandam enquanto os preços sobem, e por isto que os municípios andam a contar casas — o Porto prometeu mil de renda acessível e vai fechar o ano com 588. O atlas europeu não descobriu nada que quem procura casa em Lisboa não soubesse. Pôs é no mesmo mapa, com o mesmo método, e mostrou que a companhia é grande.
Gráfico: Tugadaily, com dados do INE