Destruir roupa por vender passou a ser proibido na UE — e Portugal pode ganhar com isso
Desde 19 de julho, as grandes empresas estão proibidas de destruir roupa e calçado por vender na UE. Em Portugal, a fiscalização cabe à ASAE — e a indústria vê uma oportunidade.
Acabou-se a trituradora como destino de coleções inteiras. Desde 19 de julho, as grandes empresas que vendem na União Europeia estão proibidas de destruir roupa, acessórios e calçado que não conseguiram vender — é uma das primeiras regras práticas do novo regulamento europeu do ecodesign, e mexe com um dos segredos mais incómodos da moda.
O que proíbe a nova regra europeia?
Destruir vestuário e calçado novos por vender, pura e simplesmente. A obrigação aplica-se para já às grandes empresas que colocam estes produtos no mercado europeu; as médias só entram em 2030 e as micro e pequenas ficam de fora. Além da proibição, as marcas passam a ter de reportar o que fazem aos excedentes — quantos artigos sobram e para onde vão. Há exceções de bom senso: produtos perigosos, danificados, contaminados ou presos a restrições legais podem continuar a ser retirados, e a destruição é tolerada quando a doação foi tentada sem sucesso. Os detalhes do regulamento estão na página oficial da Comissão Europeia.
Quem fiscaliza a proibição em Portugal?
A ASAE, que fica encarregada de garantir que os excedentes seguem para doação ou reaproveitamento em vez de irem parar ao incinerador. E é aqui que a história fica interessante para a economia nacional: a fileira do têxtil e do calçado portuguesa, habituada a produzir para as grandes marcas europeias, vê na nova regra uma oportunidade — mais reparação, mais reciclagem, mais produção próxima e em quantidades certas, menos contentores de sobras. Não é a primeira vez que Bruxelas aperta as regras e o tecido empresarial português encontra maneira de aproveitar a onda, como se viu quando obrigou as gigantes tecnológicas a abrir o Android à concorrência.
Para o consumidor, a promessa é dupla: menos desperdício escondido e mais peças a chegar a canais sociais e de desconto. Para as marcas, o recado é claro — o que não se vende deixa de poder desaparecer discretamente. Agora tem de aparecer nas contas.
Por Beatriz Mota
Imagem: Elkágyé / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)