A Europa Ocidental teve o verão mais quente de sempre. Em Portugal, agosto foi o quinto mais chuvoso desde 1931
O boletim do IPMA já saiu e responde à pergunta que tinha ficado no ar. A média de agosto em Portugal continental ficou 0,16 graus acima do normal, a temperatura máxima ficou abaixo, e choveu mais de duas vezes e meia o habitual.
Ficámos com uma pergunta em aberto há dez dias. O Copernicus tinha acabado de dar à Europa Ocidental o verão mais quente desde que há registo, com 2,54 graus acima da média de 1991-2020, e Portugal — que está dentro da caixa geográfica que produziu esse recorde — não aparecia em lado nenhum da lista. Faltava o boletim nacional que explicasse a ausência. Já saiu.
A resposta é quase decepcionante de tão simples: em agosto, aqui, esteve normal. O valor médio da temperatura média do ar em Portugal continental foi de 23,07 graus, uma anomalia de apenas 0,16 acima do normal. A temperatura máxima média, 29,77 graus, ficou mesmo abaixo do normal, 0,13 graus. Enquanto França e o nordeste de Espanha somavam desvios de quatro e cinco graus, o continente português andou em cima da linha.
O que puxou os números para baixo
Chuva, e muita. O valor médio da precipitação mensal foi de 36,6 milímetros, mais de duas vezes e meia o normal para agosto, e chegou para fazer deste o quinto agosto mais chuvoso desde 1931 e o terceiro deste século. Foram registados 17 novos extremos de precipitação. Os dias decisivos foram os de 23 a 28, com aguaceiros fortes na região de Lisboa, no vale do Tejo e no litoral entre Setúbal e Sines; na região de Lisboa choveu mais de sete vezes o valor médio do mês.
Há um pormenor que vale a pena reter, porque contraria a intuição de quem viveu o verão em Portugal: além do extremo absoluto da temperatura máxima registado a 18 de agosto no Pinhão, com 43,5 graus, o mês produziu cinco novos extremos nos menores valores da máxima. Ou seja, houve estações que tiveram o seu dia de agosto mais fresco de sempre. Foi um mês de médias mornas feito de dias muito desiguais.
A seca não desapareceu, mudou de sítio
A chuva aliviou a situação de seca meteorológica na maior parte do território, o que é uma reviravolta face a julho, o mês mais seco deste século em Portugal. Mas o alívio não foi geral: no interior do Baixo Alentejo e no Sotavento Algarvio a situação agravou-se. É o padrão que se repete há anos — o país molha-se a norte e a oeste, e o sudeste continua a secar.
Nas ilhas as contas foram outras. Nos Açores, agosto foi relativamente quente e ligeiramente chuvoso, com as estações das Flores, Pico, Horta, Graciosa e Nordeste acima do terceiro quartil da respetiva distribuição desde 1999. Na Madeira, as quatro estações de referência ficaram todas acima do normal, e o Porto Santo teve mesmo o agosto mais quente desde 1961, com uma anomalia de 1,6 graus. A temperatura mínima foi, no continente, a única componente claramente empurrada para cima: 16,38 graus de média, 0,44 acima do normal e o oitavo valor mais alto desde 2000.
Somando tudo: o verão que a Europa Ocidental passará a citar como referência não foi o verão que se passou em Portugal. Uma análise mais detalhada do verão europeu está prometida pelo Copernicus para o fim deste mês, e é aí que se saberá onde é que o país ficou, exatamente, dentro de uma região que bateu o seu próprio recorde sem o nosso contributo.
Por Marta Carneiro
Imagem: IPMA