Em 57 economias, as casas só desceram em 14. Portugal foi a que mais subiu
O BIS diz que os preços reais da habitação caíram 1,2% no mundo no primeiro trimestre. Em Portugal subiram 15,2%, o valor mais alto da lista, à frente da Macedónia do Norte e da Bulgária.
Há uma maneira desconfortável de perceber o que se passa com a habitação em Portugal, e é olhar para o resto do mundo. O Banco de Pagamentos Internacionais, o banco central dos bancos centrais, acaba de fazer as contas a 57 economias. Em 39 delas os preços reais das casas subiram, em quatro ficaram na mesma e em 14 desceram. Em nenhuma subiram tanto como cá.
A subida portuguesa foi de 15,2% em termos reais no primeiro trimestre, ou seja já descontada a inflação. O segundo lugar é da Macedónia do Norte, com 12,5%, e o terceiro da Bulgária, com 10,8%. É uma companhia estranha para um país da zona euro, sobretudo porque a média da própria zona euro ficou nos 2,6%.
Porque é que o mundo desceu e Portugal não
Globalmente os preços reais caíram 1,2% num ano, e caíram mais depressa do que no final de 2025, quando a descida era de 0,5%. O comentário do BIS atribui grande parte do movimento à Ásia, com a China a recuar 7,1% e a Indonésia 3,2%. Mas também há quedas em sítios onde ninguém esperaria: o Canadá perdeu 7%, os Estados Unidos e o Reino Unido perderam 2% cada.
Em Portugal a explicação continua a ser a mesma de sempre, e não é nada sofisticada. Há muito mais gente a querer comprar do que casas a chegar ao mercado, sobretudo na faixa de preços onde vive a maioria das pessoas. Enquanto essa conta não mudar, os juros e a inflação podem travar a procura sem que os preços acompanhem.
Espanha também sobe, e fica cinco pontos atrás
Vale a pena olhar para o vizinho. Espanha registou 9,9% de subida real, Itália 3,8%, e França e Alemanha tiveram ligeiras descidas. A Austrália subiu 6%. É por isso que a comparação com a zona euro é a mais reveladora: Portugal está a subir quase seis vezes mais depressa do que o bloco a que pertence.
Isto encaixa com o que os dados nacionais têm vindo a mostrar. O ritmo está a abrandar, mas continua a abrandar a partir de um patamar altíssimo, como se vê no nosso acompanhamento do preço das casas, e a pressão sobre o orçamento das famílias é agravada pela inflação nos 3,3%.
O Governo aponta o pacote fiscal da habitação, com IVA de 6% na construção, e a simplificação do licenciamento como resposta. Nenhuma dessas medidas produz casas este ano. Numa perspetiva mais longa, o BIS nota ainda que os preços reais no mundo estão 20% acima do nível em que ficaram no fim da crise financeira de 2007-2009. Em Portugal, quem procura casa não precisa de um relatório para saber disso.
Gráfico: Tugadaily, com dados do BIS