O leilão dos 1.050 MVA de armazenamento ficou para depois (e o Governo diz que está a ler 62 participações)
As candidaturas deviam ter aberto na segunda-feira. A ministra do Ambiente e Energia falou em três a quatro semanas de atraso, e aproveitou a visita a Abrantes para anunciar que parte da capacidade do Pego vai para a Zona Livre Tecnológica.
Na segunda-feira devia ter aberto o concurso que distribui 1.050 megavolt-ampere de capacidade de ligação à rede elétrica a projetos com armazenamento. Não abriu. Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia, explicou o adiamento a partir do Tagusvalley, em Abrantes, e apontou para três ou quatro semanas.
O motivo é prosaico e, à sua maneira, bom sinal: chegaram 62 participações à consulta pública, cada uma com vários contributos, e estão a ser analisadas uma a uma.
O que está em jogo nos 1.050 MVA
São dois procedimentos, não um. Um atribui 750 MVA a instalações de armazenamento autónomo. O outro reserva 300 MVA a centros eletroprodutores renováveis com armazenamento colocalizado, e esteve em consulta pública na DGEG depois de o Governo os ter apresentado no final de junho.
Convém perceber o que se está a leiloar, porque não são baterias. É espaço na rede. O recurso escasso em Portugal já não é o sol, nem o vento, nem sequer o dinheiro para instalar baterias: é o ponto de injeção que permite entregar a eletricidade a quem a consome. A Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia quer 6,9 GW instalados até 2030, e nenhum desses gigawatts serve para nada se ficar preso atrás de uma subestação cheia.
Abrantes, e a parte do Pego que já tem destino
A visita rendeu uma notícia que não estava no guião. Parte da capacidade disponível no Pego vai ser atribuída à Zona Livre Tecnológica criada no processo de transição justa, depois do encerramento da central a carvão em 2021.
A ministra enumerou quatro fatores que considera escassos e que Abrantes tem todos ao mesmo tempo: acesso à rede elétrica, água, terrenos industriais e conhecimento técnico e de engenharia. O presidente da câmara, Manuel Jorge Valamatos, disse estar expectante quanto ao concurso e falou do potencial de atração da capacidade remanescente do ponto de injeção, tanto para produtores como para consumidores, incluindo centros de dados.
O resto do Pego continua a andar devagar. A Endesa, que venceu o concurso de transição justa em 2022, prevê começar em 2027 a construção de um projeto híbrido renovável com cerca de 600 MW, combinando eólica, solar e armazenamento, num investimento estimado em 600 milhões de euros. Sobre os apoios do Fundo Ambiental aos antigos trabalhadores da central, a ministra garantiu que ninguém fica sem apoio.
Há aqui um relógio que ninguém controla. O conhecimento de engenharia acumulado no Pego é uma das tais coisas escassas, e vai-se embora sozinho se os antigos trabalhadores se reformarem ou arranjarem emprego noutro sítio antes de os projetos arrancarem. Um mês de atraso no leilão não resolve isso nem o agrava muito. Três anos resolveriam, no mau sentido.
Por Beatriz Mota
Imagem: © União Europeia, 2026 / Claudio Centonze, Serviço Audiovisual da Comissão Europeia (CC BY 4.0) · fotografia de arquivo, fevereiro de 2026