Washington e Tóquio compraram ienes em conjunto pela primeira vez desde 1998
O Japão e os Estados Unidos confirmaram uma intervenção cambial coordenada para travar a queda do iene, que tinha chegado a mínimos de 40 anos face ao dólar. Só numa sessão o Banco do Japão gastou cerca de 5,33 biliões de ienes.
Tóquio e Washington confirmaram esta semana que agiram juntos nos mercados cambiais para segurar o iene. É a primeira operação conjunta dos dois países a comprar a moeda japonesa desde 1998, e a escala não deixa margem para dúvidas sobre o incómodo de ambos os lados.
Os números do Banco do Japão mostram cerca de 5,33 biliões de ienes gastos numa sessão de sexta-feira, depois de uma intervenção recorde de cerca de 8,45 biliões no dia anterior. Em três sessões, o iene chegou a valorizar-se 5%.
Porque é que se chegou aqui
O dólar transacionava acima dos 163 ienes antes da operação, tocando máximos de 40 anos. Uma moeda tão fraca alivia os exportadores japoneses, mas encarece tudo o que o Japão importa — energia, alimentos, matérias-primas — e transforma-se rapidamente num problema político interno. Depois do anúncio oficial, o dólar caiu cerca de 1%, para 156,34 ienes.
O que torna esta intervenção invulgar não é o Japão ter agido. É os Estados Unidos terem entrado com ele. Washington raramente intervém em câmbios, e neste caso o interesse é próprio: um iene fraco alarga o défice comercial americano.
O que fica em aberto
Tóquio deixou claro que não hesitará em repetir a operação coordenada se for preciso, o que funciona como aviso a quem quiser voltar a testar a moeda. Para os mercados europeus, o efeito imediato sente-se sobretudo nos fluxos e na volatilidade — o mesmo pano de fundo que temos acompanhado nos mercados de ouro, petróleo e taxas de juro. Os dados oficiais das operações são publicados pelo registo oficial de intervenções cambiais do Ministério das Finanças japonês.
Por Beatriz Mota
Imagem: Suicasmo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)