EUA e Irão passaram uma noite sem ataques e agora tudo se decide no Estreito de Ormuz
Os EUA não anunciaram novos ataques ao Irão pela primeira vez em duas semanas. A mediação regional avança e o compromisso em cima da mesa passa pela passagem de navios em Ormuz.
Houve uma noite de silêncio, e no meio desta guerra isso já é notícia. No sábado, os militares norte-americanos não anunciaram novos ataques ao Irão pela primeira vez em quase duas semanas de bombardeamentos, e os países que albergam bases americanas na região também não reportaram fogo iraniano de resposta. Depois de treze noites seguidas a contar explosões, de repente há espaço para outra coisa: conversa.
Porque é que os ataques pararam?
Porque a diplomacia ganhou terreno. Um responsável envolvido na mediação regional descreveu a pausa simultânea — americana e iraniana — como um sinal positivo que ajuda os esforços para baixar a temperatura. Não é um cessar-fogo assinado, é uma trégua de facto, do género que existe enquanto ninguém carregar primeiro no botão. Washington e Teerão continuam publicamente em desacordo sobre o estado das negociações: Donald Trump disse que o Irão está a ficar mais sério e adoraria fechar um acordo, e no mesmo sábado um responsável militar iraniano veio dizer exatamente o contrário.
O que está em cima da mesa nas negociações?
O Estreito de Ormuz, como sempre. O compromisso que os mediadores andam a desenhar passa por devolver ao Irão a gestão da passagem de navios pelo estreito, mas com menos restrições impostas às embarcações — uma versão remendada do acordo interino que já existia antes de tudo descarrilar. É um detalhe técnico que soa a nada e vale tudo: por ali passa uma fatia enorme do petróleo mundial, e foi precisamente a disputa sobre quem manda naquele corredor que levou aos ataques das últimas duas semanas.
O que muda para os preços do petróleo?
Menos do que se esperava, e por má razão. A pausa nos bombardeamentos chegou ao mesmo tempo que os rebeldes Houthi atacaram dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, o que manteve o barril colado aos 100 dólares. Ou seja: mesmo com o principal foco a arrefecer, abriu-se outro num corredor marítimo diferente, e o mercado continua a pagar prémio de risco. Quem vai abastecer em Portugal sente isto com o atraso habitual de uma ou duas semanas, e o resto está no nosso acompanhamento dos mercados.
Nada disto garante o desfecho. Uma pausa não é paz, e já houve pelo menos um cessar-fogo interino a rebentar este ano. Mas depois de duas semanas em que a única pergunta era quantos alvos foram atingidos esta noite, valer a pena perguntar outra coisa — se desta vez alguém pega na saída de emergência — já é um progresso estranho e bem-vindo.
Por Marta Carneiro
Imagem: Wikideas1 / Wikimedia Commons (CC0)