Porque é que a CGTP passou a pedir 1.100 euros? Porque é o número que o Governo prometeu para 2029
O acordo de concertação social fixa o salário mínimo em 970 euros em 2027 e 1.020 em 2028. A CGTP quer 1.100 já em 1 de janeiro de 2027, e convocou manifestação nacional para 17 de outubro.
Em julho, quando escrevemos sobre o assunto, a CGTP pedia 1.050 euros de salário mínimo para 2027. O Conselho Nacional reuniu-se na sexta-feira e o número subiu: agora são 1.100 euros, a 1 de janeiro de 2027.
Cinquenta euros não parecem grande coisa numa reivindicação sindical. Mas 1.100 não é um número redondo escolhido ao acaso, e é aí que a coisa fica interessante. É o valor que o próprio Governo inscreveu no seu programa como meta para 2029.
Três números para o mesmo salário
Vale a pena pôr os três lado a lado, porque é raro vê-los juntos.
O salário mínimo está hoje nos 920 euros. O acordo de concertação social em vigor manda-o para 970 euros em 2027 e para 1.020 em 2028. E o programa do Governo aponta aos 1.100 euros em 2029.
A CGTP não inventou um valor. Pegou no número do Governo e antecipou-o dois anos. Daí a pergunta que a central passa a fazer deixar de ser “quanto” e passar a ser “quando”.
O que mais está na lista
O salário mínimo é a parte que faz manchete, mas não é a parte que mexe com mais gente. A CGTP pede aumentos gerais de pelo menos 15% para todos os trabalhadores, com um mínimo de 150 euros, e junta a isso a reposição do direito de contratação colectiva, a revogação da caducidade, as 35 horas semanais sem perda de retribuição e o combate à precariedade no privado e no público.
O calendário também já está fechado. Há um mês de acção que arranca a 17 de setembro, com um plenário de sindicatos em Lisboa, passa pelo 56.º aniversário da central a 1 de outubro e termina a 17 de outubro, um sábado, com manifestação nacional descentralizada por Lisboa, Porto e Coimbra.
E do outro lado da mesa
A Comissão Permanente de Concertação Social volta a reunir-se na próxima semana, e é aí que o pedido encontra a resposta. Por enquanto, o Ministério do Trabalho tem repetido que o que está em cima da mesa é o cumprimento da meta já acordada, e que mudá-la exigiria um novo acordo, não um anúncio.
Traduzido: os 970 euros de janeiro de 2027 são, para já, o número real. Os 1.100 são uma discussão sobre o ritmo. Para quem ganha o mínimo, a diferença entre os dois cenários vale 130 euros por mês, catorze vezes por ano.
Por Miguel Sarmento
Imagem: Esquerda.net / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)