A UNEF fiscalizou 52 421 estrangeiros no primeiro ano e encontrou 1 117 irregulares
A PSP fechou as contas à nova unidade de estrangeiros e fronteiras. Foram 5 397 ações entre 21 de agosto de 2025 e 31 de julho de 2026, 831 notificações para sair do país e 285 detenções — e uma taxa de irregularidade de 2,1%.
A PSP fez as contas ao primeiro ano da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras. O número que salta à vista não é o das detenções — é a proporção.
Entre 21 de agosto de 2025 e 31 de julho de 2026, os Núcleos de Estrangeiros e Controlo Fronteiriço realizaram 5 397 ações de fiscalização, nas quais foram fiscalizados 52 421 cidadãos estrangeiros. Destes, 1 117 estavam em situação irregular. São 2,1%. Das mesmas ações resultaram 831 notificações para abandono voluntário do território nacional, 285 detenções por permanência irregular e uma detenção por desobediência a uma interdição de entrada.
O que os 2,1% dizem — e o que não dizem
Convém ler o número pelo que ele é. Não é um retrato da população estrangeira em Portugal, porque a fiscalização não é aleatória: as ações são dirigidas, escolhem locais, setores e horários onde a irregularidade é à partida mais provável. E é precisamente aí que está o interesse do dado. Num universo escolhido para maximizar deteções, 97,9% das pessoas fiscalizadas estavam em situação regular. Serve mal os dois lados do debate que costuma invocá-lo, e é por isso que raramente aparece com o denominador ao lado.
A unidade existe há um ano e foi criada por lei
A UNEF entrou em funcionamento a 21 de agosto de 2025 e herdou as competências de controlo de fronteiras e de fiscalização da permanência que pertenciam ao extinto SEF. Foi criada pela Lei n.º 55-C/2025, de 22 de julho, que a define como unidade especial da PSP para fronteiras, permanência e retorno. Informalmente, quase toda a gente lhe chama mini-SEF.
O retorno é a outra metade do trabalho
Pela Unidade Central de Retorno e Readmissão passaram, neste primeiro ano, 221 retornos forçados, 83 deles com escolta até ao destino final, e 1 732 retornos voluntários — dos quais 995 apenas nos primeiros sete meses de 2026. Foram instaurados 720 processos de afastamento coercivo, dos quais 262 já estão decididos, e marcados mais de 800 voos. O Centro de Instalação Temporária do Porto e os espaços equiparados nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro retiveram mais de 700 cidadãos de países terceiros.
Boa parte do trabalho não é deste ano
Há um detalhe no balanço que explica muita coisa sobre a lentidão que os residentes sentem. A PSP diz que continua a analisar processos de afastamento vindos da AIMA e do extinto SEF, e que uma parte significativa deles é anterior a 2020. A unidade nasceu em agosto do ano passado; boa parte da fila que está a despachar nasceu muito antes dela.
Falta ainda a peça que pode mudar as regras do jogo: o Tribunal Constitucional tem em mãos a nova lei de estrangeiros e já chumbou cinco normas antes de receber as onze que agora aprecia. Até lá, para quem vive cá, o contacto mais provável com a UNEF continua a ser o mais banal de todos — a fila da fronteira no aeroporto, onde a dúvida costuma ser que documento usar nas portas automáticas.
Por Juliana Castilho
Gráfico: Tugadaily, com dados da PSP/UNEF