Jensen Huang estreou-se no X só para dizer que a América não pode fechar a IA
O presidente da Nvidia publicou o seu primeiro post no X com uma carta aberta a favor dos modelos de pesos abertos, assinada por 25 empresas. OpenAI e Anthropic ficaram de fora.
Há uma certa graça em alguém passar anos sem publicar uma única linha numa rede social e depois estrear-se com uma carta de política pública. Foi o que Jensen Huang fez na quinta-feira: o primeiro post de sempre do presidente da Nvidia no X não foi uma foto do escritório nem um agradecimento aos acionistas — foi um documento chamado Open Weights and American AI Leadership.
O que diz a carta dos pesos abertos?
Que os Estados Unidos precisam das duas coisas ao mesmo tempo. Huang defende que o país deve alimentar tanto os modelos proprietários de fronteira como os modelos de pesos abertos, em vez de concentrar tudo em sistemas fechados, argumentando que é essa mistura que maximiza inovação, concorrência e resiliência. A tese central da carta é que restringir os modelos abertos enfraqueceria a liderança americana e travaria a inovação, em vez de melhorar a segurança nacional — precisamente o inverso do argumento que costuma ser usado para os limitar.
Por baixo do texto está uma ansiedade concreta que ninguém escreveu por extenso: os modelos abertos mais fortes do momento já não são todos americanos. Quando os laboratórios chineses publicam pesos abertos e o Ocidente publica APIs, quem ganha os programadores do mundo inteiro é a coisa que se pode descarregar.
Quem assinou e quem ficou de fora?
Assinaram cerca de 25 empresas, entre elas a Dell, a IBM, a Meta, a Microsoft, a Mozilla, a Perplexity, a Palantir e a Hugging Face. É uma lista pesada. Mais interessante é a ausência: nem a OpenAI nem a Anthropic — os dois laboratórios cujos modelos de fronteira estão precisamente do lado fechado da discussão — puseram o nome no documento.
Para a Nvidia, convém dizê-lo, isto não é caridade intelectual. Quanto mais gente treinar e correr modelos por conta própria, mais placas se vendem; um mundo de meia dúzia de laboratórios fechados compra menos silício do que um mundo com milhares de equipas a afinar pesos abertos. O argumento pode estar certo e ser interessado ao mesmo tempo.
O debate também não é só americano. Já vimos o Japão juntar 44 empresas num consórcio de IA soberana por razões parecidas, e a Europa anda a fazer contas ao mesmo problema. A pergunta de fundo é sempre a mesma: quando a próxima década de software assentar em cima de meia dúzia de modelos, é melhor que alguém consiga abrir a caixa. Detalhes técnicos da posição da empresa estão no site oficial da Nvidia.
Por Oliver Grant
Imagem: Maurizio Pesce / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)