O Japão juntou 44 empresas num consórcio de IA soberana e apostou tudo nos robôs
Chama-se Noestra e reúne 44 empresas japonesas à volta da IA física e da robótica. O Japão perdeu a corrida dos grandes modelos e decidiu disputar outra.
O Japão olhou para a corrida dos grandes modelos de linguagem, viu os Estados Unidos e a China a quilómetros de distância, e fez o que faz melhor: mudou de pista. Quarenta e quatro empresas japonesas acabam de formar um consórcio de inteligência artificial soberana chamado Noestra, virado para a IA física e para a robótica.
O que é a IA física?
É inteligência artificial que não vive só dentro de um ecrã. São sistemas que percebem o que está à sua volta através de sensores, tomam decisões e depois mexem qualquer coisa no mundo real — um robô numa linha de montagem, um veículo, equipamento de fábrica. Em vez de gerar texto, gera movimento.
E é aqui que o Japão tem cartas na mão. Robótica, automóvel, sensores, automação industrial: são áreas onde as empresas japonesas mandam há décadas e onde existem dados proprietários que ninguém mais tem. Um consórcio permite juntar essas máquinas, esses dados e capacidade de computação controlada em casa.
Porque é que o Japão precisa de um consórcio para isto?
Porque sozinha nenhuma empresa aguenta a fatura. A iniciativa encaixa no plano mais amplo de Tóquio de canalizar investimento público e privado para setores estratégicos, semicondutores incluídos, reduzindo a dependência de tecnologia estrangeira. Jensen Huang, da Nvidia, passou por Tóquio quando a coisa foi apresentada, o que diz bastante sobre quem continua a fornecer as pás nesta corrida ao ouro.
O sucesso não está garantido, e vai depender menos de dinheiro do que de acordos chatos: regras de partilha de dados, normas técnicas, quem é dono dos modelos treinados com informação de várias empresas. O Japão vai também continuar a comprar chips e software lá fora.
Mesmo assim, a estratégia tem lógica. Enquanto a Europa enche o continente de data centers e os Estados Unidos discutem travões de emergência para modelos avançados, o Japão decidiu que a sua vantagem está nas fábricas que já tem. Os planos industriais oficiais estão publicados pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria japonês.
Por Oliver Grant
Imagem: Luke Ma from Taipei, Taiwan ROC / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)