O défice comercial encolheu 393 milhões em julho. Retire uma rubrica e cresceu 65
O INE divulgou esta quarta-feira os números de julho. O défice da balança de bens ficou em 3.052 milhões de euros, menos 393 milhões do que há um ano. Sem as transações sem transferência de propriedade, ficou em 3.065 milhões, mais 65 do que em julho de 2025.
Há dois défices comerciais em julho, e apontam para lados opostos.
O primeiro é o que vai correr nos jornais. As exportações de bens cresceram 6,5% em termos homólogos e as importações apenas 0,6%. Como as vendas subiram muito mais do que as compras, o défice da balança comercial de bens fechou o mês em 3.052 milhões de euros, uma melhoria de 393 milhões face a julho do ano passado, segundo o destaque publicado esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística.
O segundo défice está no mesmo documento, poucas linhas abaixo. O INE calcula a balança também sem as transações sem transferência de propriedade: mercadoria que atravessa a fronteira para ser trabalhada por encomenda e volta a atravessá-la depois, sem nunca mudar de dono. Retirada essa rubrica, o défice de julho foi de 3.065 milhões. E em vez de encolher 393 milhões, cresceu 65.
Toda a diferença está do lado das importações. Com aquelas transações incluídas, subiram 0,6%. Sem elas, subiram 5,5%, quase dez vezes mais. As exportações mal se mexem entre uma conta e a outra: 6,5% e 7,0%.
Quanto disto é preço e não mercadoria
Há uma segunda leitura no mesmo destaque, e serve para as duas contas. O índice de valor unitário das exportações, que é o indicador de preços do INE, subiu 5,6% em julho. O das importações subiu 5,1%, a quarta variação homóloga positiva consecutiva.
Vale a pena fazer a subtração. As exportações valeram mais 6,5% do que há um ano e os preços a que saíram subiram 5,6%. Sobra muito pouco para volume, isto é, para mercadoria a mais a sair do país.
Em julho de 2025 esses mesmos índices estavam negativos: -1,9% nas exportações e -3,0% nas importações. É parte da explicação para as variações de 2026 parecerem tão folgadas. A base de comparação é barata.
Nada disto desmente o mês, que também não foi mau. Junho tinha sido bem mais forte nos dois fluxos, com +10,7% nas exportações e +19,6% nas importações, e a travagem brusca das compras ao exterior é real. É o mesmo pano de fundo em que a Fitch subiu a notação da República para A+ na semana passada, embora o tecido empresarial conte outra história: até agosto tinham-se constituído 36.124 empresas, e só a construção e as tecnologias de informação criaram mais empresas do que em 2025.
O que muda é a frase. Dizer que o défice comercial melhorou em julho obriga a dizer qual das duas contas se está a citar, porque a outra diz exatamente o contrário.
Por Beatriz Mota
Imagem: Nuno Morão / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)