Quem paga a conta quando arde? Na Europa, o seguro cobre um quarto
No discurso do Estado da União, Ursula von der Leyen anunciou uma aliança europeia para o seguro de riscos climáticos. Cerca de 25% das perdas com catástrofes estão cobertas por seguro privado, e a diferença cai nos orçamentos dos Estados.
Houve uma frase no discurso do Estado da União desta quarta-feira que passa despercebida ao lado das grandes manchetes, e que é provavelmente a que mais mexe com as contas de quem vive em Portugal. Só cerca de um quarto das perdas causadas por catástrofes na Europa está coberto por seguro privado. O resto acaba onde sempre acaba: no orçamento do Estado.
Ursula von der Leyen anunciou que a Comissão vai criar uma aliança europeia para o seguro de riscos climáticos. Não há ainda regulamento, calendário nem valores. Há um problema nomeado em voz alta, que é mais do que costuma acontecer.
Os números do verão que a Comissão pôs no papel
A presidente da Comissão fez a contabilidade do verão europeu: 660 mil hectares reduzidos a cinzas, cerca de 12 milhões de toneladas de colheitas perdidas, mais de 35 mil mortes adicionais durante as ondas de calor, e rios como o Danúbio, o Reno e o Garona a encolher à vista. Lembrou também que a Europa aquece a um ritmo duas vezes superior ao do resto do mundo.
Nada disto é abstrato para quem está deste lado da península. Portugal já tinha entrado nesta conversa por via dos factos: metade do território da União esteve em seca em julho e a área ardida no espaço europeu ultrapassou a do ano anterior ainda antes do fim do verão.
O que uma aliança de seguros muda, na prática
A lógica é simples de explicar e difícil de montar. Quando um risco é raro e disperso, o mercado segura-o. Quando passa a ser frequente e concentrado — fogo no mesmo mês, na mesma faixa do mapa —, as seguradoras sobem o prémio ou saem, e quem fica sem cobertura são exatamente as zonas mais expostas. É por isso que a ideia em cima da mesa em Bruxelas passa por juntar risco à escala europeia, em vez de o deixar apenas dentro de cada país.
Em paralelo, a Comissão prometeu um quadro de resiliência climática que vai identificar os 100 territórios mais vulneráveis da União e avaliar a que nível cada risco deve ser gerido, do europeu ao local. E anunciou um plano europeu contra as ondas de calor, com alerta precoce e preparação dos serviços de saúde.
Vale a pena guardar isto para quando os textos aparecerem. Portugal já aprovou uma estratégia nacional de adaptação ao clima até 2030 que foi criticada precisamente por deixar o financiamento por concretizar. Um anúncio num plenário e um regulamento publicado são coisas diferentes, e a distância entre os dois é onde estas medidas costumam perder a ambição.
Por Beatriz Mota
Imagem: © União Europeia, 2026 (CC BY 4.0)