Quase metade do ouro português está em Londres (e nem uma barra ficou em Nova Iorque)
A Holanda acaba de tirar dos Estados Unidos ouro no valor de perto de dez mil milhões de dólares e a discussão abriu em Espanha, na Alemanha e em Itália. Portugal fez a mudança em 2021, por 3,7 toneladas, e a razão que deu não foi política.
O banco central holandês passou os últimos meses a mover ouro. Cerca de 60 toneladas viajaram fisicamente dos Estados Unidos e do Canadá para instalações próprias e para o Banco de Inglaterra, e o resto foi vendido na América do Norte e recomprado em Londres — as reservas mudam de sítio sem que as barras sejam as mesmas. No total, quase 100 toneladas. O governador falou em “prontidão” e em “preparação para crises severas”. Ninguém em Amesterdão disse a palavra Trump, e toda a gente a ouviu.
A discussão abriu logo a seguir em Espanha, na Alemanha e em Itália, onde cerca de 43% das reservas estarão do outro lado do Atlântico. Em Portugal, a conversa não chegou a começar, porque já tinha acabado.
O que dizem as contas do Banco de Portugal
Fomos ver a nota das reservas de ouro no relatório de contas de 2021 do Banco de Portugal e contámos as onças, local a local. No final desse ano, das 12 299 794 onças de ouro fino que o Banco detinha, 5 991 571 estavam no Banco de Inglaterra, 5 549 238 em cofres do próprio Banco de Portugal, 640 658 no Banco de Pagamentos Internacionais, em Basileia, e 118 327 no Banco de França. Na Reserva Federal de Nova Iorque: um traço. Zero.
Feitas as divisões, dá 48,7% em Londres, 45,1% dentro de portas, 5,2% na Suíça e 1,0% em Paris. E as 118 327 onças que apareceram em França em 2021 são, ao grama, as mesmas que no ano anterior estavam em Nova Iorque — 3,7 toneladas que mudaram de continente.
A razão foi contabilística, não geopolítica
É a parte mais interessante, e é o Banco de Portugal quem a escreve. No relatório de atividade e contas de 2021, a instituição explica que o ouro detido junto da Reserva Federal de Nova Iorque “foi transferido para o Banco de França” com o objetivo de “melhorar a rendibilidade do ouro sito no exterior e passar a respetiva localização para o Eurosistema”.
Rendibilidade e Eurosistema. Não desconfiança, não soberania, não nacionalismo. Em 2021 ninguém em Lisboa estava preocupado com a fiabilidade da Fed; estava preocupado com o facto de ouro parado em Nova Iorque render menos do que ouro dentro da área do euro, onde pode ser emprestado e usado em operações colateralizadas. A decisão certa pela razão aborrecida — que é como acontecem quase todas as decisões certas.
Portugal não mexe no stock desde 2006
As 382,7 toneladas colocam Portugal no top 20 mundial, muito acima do que o tamanho da economia faria supor, e são herança das vendas que o país não fez. A última foi em setembro de 2006, ao abrigo do acordo entre bancos centrais sobre o ouro. Desde aí, nem compras nem vendas — ao contrário da Polónia, que só em 2025 comprou mais de 100 toneladas, mais do dobro do segundo maior comprador do ano.
O valor, esse, não tem parado. As reservas valiam mais de 45 mil milhões de euros no final de 2025, e o metal continuou a subir desde então — número que vamos seguindo no nosso acompanhamento dos mercados. É dinheiro que o país tem sem ter feito nada para o ter, o que ajuda a explicar por que razão nenhum governo lhe toca.
Por Beatriz Mota
Gráfico: Tugadaily, com dados do Banco de Portugal