Praia–Ponta Delgada por 218 euros. Lisboa–Ponta Delgada, com metade do tempo de voo, passa dos 500
A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada enviou um ofício à Autoridade da Concorrência. Diz que as classes tarifárias mais baixas quase nunca estão disponíveis, mesmo em pesquisas feitas para agosto de 2027.
A comparação que os empresários de São Miguel puseram em cima da mesa é desconfortável porque é interna. Não compara a Azores Airlines com outra companhia. Compara a Azores Airlines consigo própria.
Um voo entre a Praia, em Cabo Verde, e Ponta Delgada demora perto de quatro horas e custa, em períodos comparáveis, cerca de 218 euros. Um Lisboa–Ponta Delgada demora cerca de duas e aparece com ida e volta acima dos 500. Mesmo operador, metade do tempo no ar, mais do dobro do preço.
O que a Câmara do Comércio pediu
A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, que representa as empresas de São Miguel e Santa Maria, enviou um ofício à Autoridade da Concorrência a pedir uma análise às condições de concorrência nas ligações entre o continente e os Açores. Tem o cuidado de dizer aquilo que não está a dizer: não afirma que haja conluio entre operadores.
O que afirma é outra coisa, e é mais difícil de despachar. Primeiro, que as classes tarifárias mais baixas não estão regularmente disponíveis na Azores Airlines nem na TAP, mesmo quando a pesquisa é feita com muita antecedência. A associação diz ter encontrado ida e volta na ordem dos 500 euros para voos de agosto de 2027, que é daqui a quase um ano. Segundo, que a oferta aparece concentrada nos níveis tarifários mais altos.
O caso de controlo chama-se Funchal
O segundo termo de comparação é a Madeira. Segundo a análise da associação, o Lisboa–Ponta Delgada situa-se, em vários períodos, perto do dobro dos valores médios do Lisboa–Funchal. A diferença entre as duas rotas não é a distância. É que no corredor da Madeira há mais operadores a disputar o passageiro.
Isso liga-se ao terceiro elemento: a estrutura do mercado açoriano mudou depois da saída da Ryanair, e a TAP e a Azores Airlines mantêm cooperação comercial através de um acordo de code-share. Num parecer emitido em maio, a própria Autoridade da Concorrência tinha identificado riscos de essa aproximação reduzir a pressão concorrencial e conduzir a preços mais elevados. A carta da CCIPD é, no fundo, um pedido para que o regulador volte ao seu próprio aviso.
Para quem vive nas ilhas, isto não é uma discussão de tarifas. É o custo de ir a uma consulta, a um funeral ou a uma reunião. E a associação lembra que o efeito também é económico: um destino caro de alcançar perde competitividade turística, numa altura em que o arquipélago já tem outras contas a fazer com o aumento das taxas aeroportuárias previsto para 2027 e com um ano de recordes de passageiros nos aeroportos nacionais.
Por Beatriz Mota
Imagem: Siyuan He / Wikimedia Commons (CC0 1.0)