O turismo vale 8,1% da economia. Também vale 16,1%, e os dois números são do INE
A Conta Satélite do Turismo para 2025 dá três leituras diferentes do mesmo setor, e é por isso que os títulos nunca batem certo. Só uma delas mede o que o turismo acrescenta ao país.
Se leu esta semana que o turismo vale 8,1% da economia portuguesa, leu bem. Se leu que vale 11,8%, também leu bem. E se leu 16,1%, igualmente. Os três números saem do mesmo destaque do INE, publicado a 3 de agosto, e medem coisas diferentes. Vale a pena perceber quais, porque a confusão entre elas é a razão pela qual o debate sobre o turismo em Portugal anda sempre a falar em círculos.
O que cada número mede
O 8,1% é o Valor Acrescentado Bruto direto gerado pelo turismo, a fatia do VAB nacional. É a medida mais dura: o que os hotéis, a restauração, as transportadoras e as agências acrescentam à economia, descontado tudo o que compram a outros. Ficou nos 8,1% em 2025 e é aí que está desde 2023.
O 11,8% é o contributo total para o PIB, direto e indireto, calculado pelo INE com as matrizes input-output. São 36,2 mil milhões de euros. Inclui a lavandaria que lava os lençóis do hotel e o produtor que vende o vinho ao restaurante. É o número que os comunicados do setor preferem, por razões óbvias, e não é errado — mede a pegada, não o valor criado.
O 16,1% é o Consumo do Turismo no Território Económico face ao PIB. É quanto se gasta cá em turismo, não quanto o país ganha com isso. Parte desse dinheiro sai outra vez em importações. É a leitura mais generosa, e o INE nota que desceu ligeiramente face ao máximo histórico de 2023, que foi 16,3%.
O número que mudou tudo e quase ninguém citou
Está uma linha abaixo dos títulos, e é a mais interessante. O turismo contribuiu com 0,3 pontos percentuais para o crescimento real do PIB em 2025. A economia cresceu 1,9%. Fizemos a conta: isso significa que cerca de um sexto do crescimento do ano passado veio do turismo — e cinco sextos vieram de todo o resto.
Não é um colapso. O consumo turístico ainda subiu 4,9% em termos nominais. Simplesmente subiu menos do que a economia à sua volta, que avançou 5,9% em termos nominais, e um setor que cresce abaixo da média deixa de ser o motor e passa a ser passageiro. Depois de anos em que o turismo puxava sozinho, a economia portuguesa passou a ganhar balanço noutros sítios.
Da próxima vez que vir um destes três números num título, a pergunta útil é sempre a mesma: este mede o que se gasta, o que se acrescenta, ou o que se arrasta atrás? São respostas diferentes à mesma pergunta, e nenhuma delas é a única verdadeira.
Por Beatriz Mota
Infografia: Tugadaily · dados INE, Conta Satélite do Turismo 2025