Seguro pediu mais Estado para o interior e para a raia (e mais confiança nas autarquias)
Numa sessão solene em Vila Nova de Cerveira, o Presidente da República apontou o despovoamento, o envelhecimento e a distância aos centros de decisão como problemas que exigem investimento do Estado central.
Vila Nova de Cerveira é uma vila raiana do Alto Minho, com um castelo do tempo de D. Dinis e uma bienal de arte contemporânea que já vai na 24.ª edição. Foi de lá que António José Seguro, este domingo, mandou um recado ao Governo.
“Sei das dificuldades comuns a tantos territórios do interior e da raia. O despovoamento, o envelhecimento, a distância aos grandes centros de decisão”, disse o Presidente da República na sessão solene da XXIV Bienal. “São desafios que exigem do Estado central mais atenção, mais investimento e mais confiança nas autarquias, que conhecem, melhor do que ninguém, as suas gentes e as suas necessidades.” A intervenção está publicada na íntegra no sítio da Presidência.
A frase que fica é a seguinte: “Um país coeso não se mede pela força das suas capitais, mas pela vitalidade dos seus territórios. E Portugal precisa de Cerveiras, de comunidades que resistam, que se reinventem, que atraiam quem vem de fora e não deixem ir quem quer ficar.”
Não é a primeira vez este mês
A 11 de agosto, Seguro tinha usado uma formulação muito próxima: o interior “não é um fardo” e precisa de “uma oportunidade”, com investimento público capaz de puxar investimento privado. Em duas semanas, é a segunda vez que leva o tema a uma intervenção pública, o que em Belém raramente é acaso.
Convém ser exato quanto ao alcance. O Presidente da República não decide orçamentos nem lança concursos; o que tem é a agenda e o púlpito. Quando os usa de forma repetida sobre o mesmo assunto, está a fixar um tema para o debate político — e a fixá-lo antes das discussões orçamentais do outono.
O que “raia” quer dizer em concreto
Em Cerveira, a fronteira não é uma abstração: do outro lado do Minho está A Guarda, na Galiza, e há gerações que a vida do concelho se faz a atravessar o rio. Seguro pegou nisso para dizer que o município “sabe-se raia e sabe-se ponte”, e que a fronteira que interessa é “a que une, e não a que separa”.
O problema material, esse, é o mesmo de Bragança a Castro Marim: sem serviços, sem transporte e sem trabalho qualificado, nenhuma vila retém quem lá nasce. O Parlamento tem em cima da mesa a reabertura da Linha do Corgo entre a Régua e Chaves, e o Governo diz que fecha agosto com 28 mil casas entregues ao abrigo do 1.º Direito — duas peças da mesma discussão, ambas por confirmar no terreno.
A XXIV Bienal de Cerveira decorre por fases até 31 de outubro e tem como tema, este ano, precisamente os territórios sem fronteira.
Imagem: Vitor Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)