O suplemento de 750 euros passou de dez zonas para oito. Todo o Alentejo ficou de fora
Abrimos os dois despachos e comparámos os anexos. Quatro quadros de zona pedagógica perderam o incentivo e dois entraram — e os quatro que saíram são todos do Alentejo e da Lezíria do Tejo.
O suplemento de 750 euros por mês para professores que adiem a aposentação vale este ano letivo em oito quadros de zona pedagógica. No ano passado valia em dez. A subtração foi noticiada assim, como uma subtração — menos dois — e é aí que a notícia costuma acabar.
Só que não foram dois a sair. Foram quatro a sair e dois a entrar. E os quatro que saíram formam um bloco geográfico: Lezíria do Tejo, Alentejo Litoral, Baixo Alentejo. O Alentejo deixou de ter uma única zona no mapa dos carenciados.
Como chegámos a este número
Não há atalho: é preciso abrir os dois despachos e pôr os anexos lado a lado, porque nenhum deles diz o que mudou.
A lista de 2025/26 está no Despacho n.º 11200-A/2025, de 23 de setembro: dez QZP, os 40, 45, 46, 54, 57, 58, 59, 60, 61 e 62. A deste ano está no Despacho n.º 10024/2026, de 11 de agosto, com efeitos desde 1 de setembro e revogando expressamente o anterior. O anexo nomeia oito: 42, 45, 46, 59, 60, 61, 62 e 63.
Comparados os dois anexos, saíram quatro zonas. O QZP 40 (Alenquer, Azambuja, Cartaxo, Rio Maior e Santarém), o QZP 54 (Grândola, Santiago do Cacém e Sines), o QZP 57 (Aljustrel, Odemira e Ourique) e o QZP 58 (Almodôvar, Castro Verde e Mértola). Catorze concelhos ao todo, nenhum deles a norte do Tejo.
Entraram duas. O QZP 42, que junta Mafra, Torres Vedras, Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço, e o QZP 63, no sotavento algarvio — Tavira, Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim. As restantes seis mantiveram-se.
O critério mudou, e é o critério que explica tudo
O despacho deste ano não escolhe zonas uma a uma. Escolhe regiões, e depois arrasta as zonas atrás delas.
O texto define carência estrutural de docentes pelo número de agrupamentos e escolas não agrupadas que, em 2025/26, ficaram com pelo menos um horário completo por preencher. Mede isso por NUTS III. Ficam carenciados os quadros de zona pedagógica abrangidos pelas três NUTS III onde essa contagem foi maior — Grande Lisboa, Península de Setúbal e Algarve.
Repare no que isto faz. Uma escola do Baixo Alentejo pode ter horários por preencher em setembro e continuar sem direito ao suplemento, porque a sua região não entrou nos três primeiros lugares de uma tabela nacional. Deixou de ser uma medida sobre escolas com falta de professores para passar a ser uma medida sobre as três regiões com mais escolas nessa situação.
O caso de Mafra, que vale a pena olhar de perto
O QZP 42 é o exemplo mais nítido do efeito. Dos seus quatro concelhos, só um — Mafra — pertence à Grande Lisboa. Torres Vedras, Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço são Oeste. Como a regra qualifica o quadro inteiro quando ele é abrangido pela NUTS III, os quatro entram.
A cem quilómetros dali, Santarém e Rio Maior saem — não porque as suas escolas tenham melhorado, mas porque a Lezíria do Tejo não está na lista das três.
Em abril, o Governo dizia outra coisa
Guarde uma data. A 2 de abril, ao abrir os concursos de professores para 2026/27, o Governo destacou 3.152 vagas em zonas carenciadas e nomeou os três territórios com maiores dificuldades de recrutamento: Grande Lisboa, Algarve e Alentejo. Quatro meses depois, o despacho que decide quem recebe o dinheiro tirou o Alentejo do mapa. Mesmo Governo, mesmo ano letivo.
O que está preso a esta lista
O dinheiro. O Decreto-Lei n.º 175/2026, publicado a 3 de setembro e em vigor desde o dia 1, fixa os 750 euros mensais para quem adie a aposentação e limita-os às 235 escolas e agrupamentos das oito zonas — e mesmo aí só quando não houver outro professor capaz de assegurar o horário.
Mas a lista não serve só para isto. A majoração do apoio à deslocação de docentes, criada em 2024, também está indexada aos quadros carenciados. Quem for colocado em Mértola ou em Sines este ano perde as duas coisas ao mesmo tempo.
Falta saber uma coisa, e não está em documento público: quantos dos professores que adiaram a reforma no ano passado estavam colocados nas quatro zonas que agora saíram. Voltaremos ao assunto quando houver resposta, como fizemos com as 20.404 colocações de agosto e com o que a Fenprof contesta no novo concurso.
Imagem: Threeohsix / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)