Abrantes vai ter dois mega centros de dados (e podem gastar 19 vezes a eletricidade do concelho)
A câmara deu parecer favorável ao segundo projeto, do grupo Hyperion, junto à rotunda de Alvega. Somado ao da EDC ONE no Pego, o conjunto pode chegar a 2,8 TWh por ano. O concelho inteiro consumiu 148,8 GWh de eletricidade em 2024.
A Câmara Municipal de Abrantes deu parecer favorável, por unanimidade, ao pedido de informação prévia de um segundo grande centro de dados no concelho. O projeto é do grupo Hyperion, fica junto à rotunda de Alvega e ocupa cerca de 151 mil metros quadrados de área de implantação, com 287 mil metros quadrados de construção. Foi classificado como Projeto de Interesse Nacional, o estatuto que encurta prazos processuais.
Não vai estar sozinho. Nos terrenos em frente à antiga central termoelétrica do Pego já estava aprovado, desde setembro de 2025, outro centro de dados de grande escala, da EDC ONE, com isenções fiscais de 16,2 milhões de euros. Os dois dependem do mesmo ponto de ligação à rede elétrica, no Pego.
É aí que as contas começam a doer. A Quercus somou a potência anunciada dos dois projetos — 300 MW no Pego e 20 MW em Alvega — e fez a aritmética. Mesmo num cenário conservador, com os equipamentos a trabalhar a 30 por cento da capacidade instalada, o consumo conjunto rondaria os 841 GWh por ano. Todo o concelho de Abrantes consumiu 148,8 GWh de eletricidade em 2024. A plena capacidade, os dois centros chegariam a cerca de 2,8 TWh, quase 19 vezes o concelho inteiro.
A água é o outro problema
Infraestruturas desta escala arrefecem-se com água, e a bacia onde vão nascer não está folgada. O diagnóstico mais recente da Agência Portuguesa do Ambiente para a região hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste, referente ao ciclo de 2028 a 2033, aponta um índice de escassez hídrica de 40 por cento no Tejo. Cerca de 60 por cento das massas de água superficiais da bacia continuam abaixo do estado bom.
A associação ambientalista pede um estudo de impacte ambiental antes de qualquer decisão administrativa sobre o projeto de Alvega, e não remetido para a fase de licenciamento. Pede um segundo estudo que avalie os dois centros em conjunto, porque é somados que os impactos vão chegar ao território. E pede que a APA e a CCDR-LVT não se pronunciem favoravelmente enquanto houver condicionantes por esclarecer.
Há ainda uma questão de escala que passa despercebida: a Zona Livre Tecnológica de Abrantes, o regime pensado para usos experimentais e transitórios, cobre hoje mais de metade do território do concelho.
Não é só Abrantes
Portugal decidiu competir por esta indústria e tem instrumentos no terreno para isso. O mapa das zonas onde o Estado quer as próximas centrais solares e eólicas foi aprovado há uma semana, e Sines já se candidatou a uma gigafábrica europeia de inteligência artificial. A Irlanda e os Países Baixos, que chegaram primeiro a este mercado, passaram os últimos anos a documentar o que acontece à rede elétrica e às comunidades quando a instalação corre mais depressa do que o planeamento.
A pergunta que Alvega levanta é mais estreita do que o debate nacional, e mais concreta. Quando dois projetos partilham a mesma subestação, a mesma água e o mesmo concelho, quem faz a soma?
Por Oliver Grant
Imagem: Romain D C / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)