O BCE subiu os juros para 2,5%. A sua prestação só muda na data de revisão
A taxa dos depósitos passa para 2,5% já a 16 de setembro, na segunda subida do ano. Quem tem crédito à habitação em Portugal não paga mais no dia seguinte: paga mais quando o contrato for revisto, com a Euribor que estiver em vigor nessa data.
O Conselho do BCE subiu as três taxas diretoras em 25 pontos base na quinta-feira, levando a taxa dos depósitos para 2,5% com efeitos a partir de 16 de setembro. É a segunda subida deste ano, e a justificação está na energia: a inflação continua acima da meta e as projeções dos serviços do banco apontam para uma média de 3% em 2026, 2,5% em 2027 e só 2,1% em 2028.
Para o crescimento, a projeção é de 0,9% este ano, 1,4% no próximo e 1,5% em 2028. Não é uma travagem. É uma economia que anda devagar enquanto os preços não descem tão depressa quanto Frankfurt gostaria.
O que isto muda na conta do fim do mês
Aqui está a parte que interessa a quem tem casa comprada com empréstimo em Portugal, e é também a parte que se percebe mal. A decisão do BCE não entra na sua prestação no dia seguinte. Entra pela Euribor, e a Euribor só lhe chega na data de revisão do contrato.
Quer dizer: se o seu crédito está indexado à Euribor a 12 meses e a revisão só acontece em março, aquilo que vai pagar até lá já foi fixado com a taxa de outra altura. Quem tem a Euribor a três ou a seis meses sente a mudança mais depressa, e mais vezes. É o mesmo mecanismo que explicámos quando as prestações voltaram a subir em setembro, com a Euribor a 12 meses a ultrapassar os 3% no início do mês.
Depois há o resto das variáveis, que são suas e não do BCE: o spread que negociou, o capital que ainda deve e os anos que faltam. Dois vizinhos com o mesmo valor em dívida podem ver aumentos muito diferentes na mesma semana.
E para o país
Portugal chega a esta subida com as contas públicas em ordem, e isso tem valor num momento em que o custo da dívida sobe para toda a gente. A Fitch subiu o rating para A+ no início do mês, e a agência DBRS classificou o país entre os menos expostos da zona euro ao encarecimento do financiamento soberano.
O calendário também conta. Se as projeções do BCE se confirmarem, a inflação só volta perto dos 2% em 2028, o que sugere que este ciclo de subidas ainda não fechou a porta. Vale a pena ir ver a data de revisão do seu contrato antes de fazer contas de cabeça.
Por Beatriz Mota
Imagem: Dr. Thomas Liptak / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)