Seis em cada dez euros de capital de risco foram parar a rondas gigantes este ano
Cerca de 60% do financiamento global a startups em 2026 foi para rondas de mil milhões de dólares ou mais, num total de cerca de 320 mil milhões. Explica muita coisa.
Cerca de 60% de todo o financiamento a startups no mundo este ano foi para rondas de mil milhões de dólares ou mais. Essas operações gigantes absorveram perto de 320 mil milhões de dólares. É essa a estatística que explica uma contradição que anda a irritar meio setor.
Como é que o mercado pode estar em máximos e péssimo ao mesmo tempo?
Porque os totais mentem. O investimento em capital de risco pode parecer historicamente forte nos gráficos enquanto muitos fundadores em fase inicial descrevem um ambiente horrível para levantar dinheiro. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
Basta um punhado de mega-rondas envolvendo laboratórios de inteligência artificial bem capitalizados, empresas de data centers e companhias privadas já estabelecidas para empurrar o total agregado para cima, sem que isso melhore em nada o acesso a capital para o resto do ecossistema. O bolo cresce e continua a ser cortado nas mesmas duas ou três fatias.
Porque é que o dinheiro se concentrou assim?
Porque os investidores estão a apostar em quem consegue garantir recursos escassos: capacidade de computação, modelos de fronteira, infraestrutura. E porque estas empresas precisam mesmo de muito mais capital do que uma startup de software tradicional — têm de comprar chips, construir data centers, contratar eletricidade a dez anos ou financiar fabrico avançado.
E o risco disto?
É duplo. Rondas enormes permitem projetos ambiciosos que um financiamento normal não suportaria, e isso é bom. Mas também inflacionam avaliações, prendem talento e capacidade de computação dentro de meia dúzia de empresas, e deixam as fases iniciais a disputar uma fatia cada vez menor.
Para quem anda a levantar capital, a mensagem é simples: os números de manchete deixaram de descrever o mercado onde a maioria das empresas vive. É o mesmo fenómeno que se vê nas contas das gigantes, com a Alphabet a entrar em fluxo de caixa livre negativo para não ficar para trás. Em Portugal, os apoios públicos a quem começa continuam a ser a via mais realista — como o StartUP Voucher. Os dados agregados são publicados pela Crunchbase News.
Por Beatriz Mota
Infografia: Tugadaily · dados Crunchbase