Há cerca de 180 mil imigrantes à espera da nacionalidade portuguesa. Em 2025 foram naturalizados 12.829
O IRN tinha 690.480 pedidos de nacionalidade pendentes a 30 de junho, mais 38% num ano, e 26% são de quem vive cá e pediu por tempo de residência. Fizemos a conta ao ritmo de 2025 e a lista dava para 14 anos.
O Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) tinha 690.480 pedidos de nacionalidade por decidir a 30 de junho deste ano. Os números foram entregues pelo Ministério da Justiça e mostram um aumento de 38% face ao mesmo ponto de 2025, quando a pilha rondava o meio milhão.
O número grande esconde quem está realmente na fila. Só 26% dos processos são de imigrantes que vivem em Portugal e pediram a nacionalidade pelo tempo de residência legal. O resto divide-se sobretudo entre descendentes de judeus sefarditas (cerca de 23%), casamento ou união de facto com um cidadão português (13%), netos de portugueses nascidos no estrangeiro (11%) e filhos (10%).
A conta que fizemos
Aplicados os 26% aos 690.480 processos, ficam perto de 180 mil pedidos de quem já cá trabalha, paga impostos e espera por um passaporte. Do outro lado da balança está o ritmo a que o país naturaliza essas pessoas. Segundo o INE, 12.829 estrangeiros residentes obtiveram a nacionalidade portuguesa em 2025, menos 38% do que os 20.624 de 2024.
Se o ritmo de 2025 se mantivesse, só a fatia dos residentes levaria cerca de 14 anos a escoar. É uma conta grosseira, e de propósito: o ritmo muda com o pessoal disponível, as duas estatísticas não medem exatamente o mesmo universo e nem todos os pedidos acabarão deferidos. Mas mostra a escala do problema melhor do que o número de 690 mil sozinho.
Porque é que os residentes ficam para trás
O Ministério da Justiça explica parte da quebra nas naturalizações com uma escolha de prioridades. O IRN está a despachar primeiro os pedidos de atribuição, sobretudo os de menores filhos de portugueses que entram pelos consulados ou online, porque nesses casos a nacionalidade é um direito desde o nascimento. A aquisição por residência vem depois.
O reforço de pessoal também ainda está a chegar. O IRN recebeu 47 conservadores em agosto, os primeiros em mais de vinte anos, mas um conservador acabado de entrar não decide milhares de processos no primeiro mês.
E as regras novas?
Os dados vão até 30 de junho, por isso apanham apenas seis semanas da nova lei. A Lei Orgânica n.º 1/2026, em vigor desde 19 de maio, subiu o tempo mínimo de residência legal para sete anos no caso de cidadãos da CPLP e da UE e para dez anos para as restantes nacionalidades. Antes eram cinco para todos.
Para quem tem um processo pendente, a parte prática é simples de dizer e difícil de viver: guardar o comprovativo do pedido, manter a autorização de residência em dia junto da AIMA e não contar com uma decisão rápida. A regulamentação da lei, aliás, devia ter saído até 16 de agosto e não saiu.
Por Juliana Castilho
Gráfico: Tugadaily · dados do Ministério da Justiça (30/06/2026)