Kiev viu um míssil russo cair numa exposição de drones — dez mortos e cerca de cem feridos
Um míssil russo atingiu na sexta-feira uma exposição da indústria de defesa perto de Kiev. Moscovo assumiu que o alvo era esse e a procuradoria ucraniana abriu inquérito.
Não foi um erro de pontaria. Na sexta-feira, um míssil russo caiu num campo de treino privado na região de Kiev onde decorria uma mostra da indústria de defesa, matando pelo menos dez pessoas e ferindo perto de cem — e o Ministério da Defesa russo veio depois dizer, sem rodeios, que era exatamente ali que queria acertar.
O que estava a acontecer no local atingido?
Uma exposição de drones. Segundo Moscovo, estavam em mostra veículos aéreos não tripulados ucranianos e estrangeiros, incluindo modelos ainda em desenvolvimento, que a Rússia acusa de serem usados contra alvos no seu território. Canais de monitorização locais apontam para mísseis balísticos como o Iskander ou os das famílias S-300 e S-400. As primeiras contagens de vítimas foram mais baixas do que o balanço que acabou por se fixar, o que costuma acontecer nas primeiras horas destes ataques.
Porque é que a Ucrânia abriu um inquérito ao próprio evento?
Porque a pergunta incómoda ficou no ar: quem é que autoriza juntar dezenas de pessoas, num país em lei marcial, à volta de material militar sensível? O procurador-geral Ruslan Kravchenko anunciou uma investigação criminal para apurar quem decidiu realizar a mostra e se os riscos foram devidamente avaliados. As decisões oficiais do lado ucraniano vão sendo publicadas no portal do governo.
O ataque encaixou num dos dias mais pesados das últimas semanas. Somando os dois lados da frente, pelo menos 21 pessoas morreram em ataques de longo alcance russos e ucranianos na sexta-feira, com drones ucranianos a incendiarem um armazém de um gigante do comércio eletrónico russo perto de São Petersburgo.
Kiev já tinha sido alvo de um bombardeamento massivo com mísseis e drones no início do mês, e a diferença desta vez é o enquadramento: a Rússia deixou de dizer que atingiu infraestrutura militar por acaso e passou a reivindicar o alvo em voz alta. É uma guerra que já nem finge discrição.
Por Marta Carneiro
Imagem: Trydence / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)