As imobiliárias tiveram o melhor semestre de sempre e continuam sem casas para vender
O primeiro semestre de 2026 foi historicamente forte para as imobiliárias em Portugal, mesmo com o stock de casas à venda a cair 14% no primeiro trimestre. O défice de habitação está estimado entre 800 mil e um milhão de casas.
Há um paradoxo no imobiliário português que já não é paradoxo nenhum: as imobiliárias acabam de fechar o melhor semestre da sua história e continuam a queixar-se de que não têm casas para vender. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é precisamente por isso que os preços não param.
Os dados oficiais de mercado só saem a 22 de setembro, mas as redes já falam de crescimento histórico no primeiro semestre. O contexto em que isso aconteceu é o de uma escassez severa: no primeiro trimestre, o stock de casas disponíveis para venda caiu 14% face ao mesmo período do ano anterior.
Porque é que faltam casas em Portugal?
Porque a construção nova nunca apanhou a procura. O défice habitacional é estimado entre 800 mil e um milhão de casas, somando habitação pública, construção nova e reabilitação de usado — um número que não se resolve num ciclo político. Enquanto isso, a procura mantém-se robusta, alimentada por rendimentos a subir, por crédito mais acessível e por compradores estrangeiros.
A queda de oferta não é uniforme. Faro perdeu 38% do stock à venda, Portalegre 31%, Funchal 26% e Porto 25% — ou seja, o Algarve e as duas áreas metropolitanas, exatamente onde a procura é mais forte. Já tínhamos mostrado o outro lado desta mesma equação quando a oferta de arrendamento caiu 22% e cada anúncio passou a receber 24 contactos.
O que muda para quem quer comprar?
Menos escolha e mais pressa. Com stock a encolher, o tempo entre anúncio e proposta encurta, e quem entra no mercado sem financiamento pré-aprovado perde casas para quem já o tem. As novas regras do crédito à habitação que entraram em vigor a 1 de agosto mexem na taxa de esforço, o que torna a preparação prévia ainda mais importante. Os índices oficiais de preços da habitação são publicados pelo Instituto Nacional de Estatística.
Um semestre recorde com metade das casas em falta não é um mercado saudável. É um mercado com muita gente a correr atrás de pouca coisa.
Imagem: Philip Mallis from Melbourne / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)